quarta-feira, 8 de maio de 2013

Riqueza e Poder II



Tudo sobre o  Golpe da CIA no Brasil 

                                                          eliane colchete

      O título deste blog corresponde à publicação em 2018, do meu "Riqueza e Poder :  a Geoegologia", cujo volume  se compõe de três "livros".  
              O primeiro já estava em meu blog na internet intitulado "a escalada do império",  tratando da história do business de mídia norte-americano como um horizonte histórico de intervenção do poder econômico nos governos como causa do imperialismo, manipulação da estrutura governamental, política externa radical, etc. O texto está revisto e ampliado na publicação. 
               O segundo, especialmente elaborado para a publicação em livro, corresponde a este blog, tratando sobre o golpe de 1964. Aqui coloquei, por questões de espaço, apenas o trecho que trata da ação da CIA. 
               Conservei o texto como na publicação, com ligeiras adaptações a este espaço. O "livro 2" contem a mais, vasto material sobre as interpretações teóricas da história do Brasil e Geral, que utilizei de modo a equacionar estes fatos e os acontecimentos até agora. Estes fatos também abarcam a trajetória da corrupção e imperialismo ditatorial nas assim designadas esquerdas comunistas, localmente "petista", etc. - trajetória que não creio atribuível a Goulart.  
             O índice do "Riqueza e poder: a Geoegologia" está anexo, assim vem ao público os itens que compõe o "livro três", em que apresento a minha teoria sobre o imperialismo cultural na ciência do desenvolvimento como "Modernidade", teoria designada "geoegologia", também interpretações da história cultural do Brasil e pós-modernidade. Injustificadamente, até agora a editora Quártica não colocou o título publicado nos sites de vendas da internet, inversamente aos meus livros anteriores pela mesma editora. Pode ser requisitado pelo meu email "liacolchete@gmail.com", ou à editora. 
                 Os militares, este ano, propuseram comemorar o aniversário do golpe, tendo sido criticados pela Onu, porém a Onu jamais se pronunciou quanto à verdade apurada dos fatos, que atribui a responsabilidade pelo golpe à Cia e aos Estados Unidos,  assim como a toda operação em âmbitos ilegal, legal e para-legal,  necessária para o mesmo, que antecedeu de anos a deflagração. 
              A cobertura da mesma ação da Cia no Irã e outros referenciais também já se conhece, estando resenhado o dossiê em meu "escalada do império". Já estamos fartos da odiosa mentalidade internacional que desde a globalização tem avassalado o processo redemocratizante no terceiro mundo, disseminando as práticas e discursos do abuso do poder econômico, hoje info-midiático,  intrusando nossas casas, intrusando de modo repugnante computadores particulares, de programação imposta por multinacional, manipulando imagens pessoais para objetivos de parasitas de mídia, impondo prostitutas, distorcendo a vida sexual das pessoas, assim como nas instituições de serviços e comércio, fazendo plágio, roubalheira, etc. O regime globalizado deve ser definido como de extorção monetária e opressão de atendimento, com multinacionais abusivamente instaladas nos serviços básicos e setores estratégico. Especialmente, sabotagem na Educação, por infiltração de dispositivos aversivos ao letramento, corredor único info-midiático, falsos profissionais praticantes de bandidagem contra a consciência, investimentos contra os verdadeiros, etc. Assim também a propósito do roubo dos salários dos servidores públicos desde 2016, só em 2018 os salários foram regularizados. 
           Na época dos militares, a consciência da resistência à opressão, coerente com o keynesianismo e movimentos sociais contrários a todo tipo de ditadura, favoreceu um intenso meio de criações culturais, "de jeito nenhum", como se falava na época, aceitando o discurso fascista que tem sido o abusivo cotidiano das mídias de hoje, traduzindo a arrogância de um despotismo que precisa ser condenado como qualquer criminoso, assim como os próprios partidos fascistas ou neonazistas que hoje proliferam clandestinamente. Mídias que devemos pois rejeitar, reclamando também críticas cabíveis por parte das assim designadas instituições internacionais. 
                                                    
                                                                         postei em 2019             
                                                                     


     Livro 2 = escrito em 2017
A CIA, o Nazismo, a Esquerda e o Terceiro Mundo (estudo do caso brasileiro)

1 = A penetração política do capital multinacional após 1945 e a ação da CIA
1 O estudo de René Dreifuss que ora examinamos, cobre a responsabilidade da CIA (Agência Central de Inteligência), o mais famoso ramo do serviço secreto norte-americano, pela ação golpista que instaurou a ditadura militar brasileira, em 1964. O estudo de Dreifuss, intitulado “1964: a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe”. (Petrópolis/RJ, Vozes editora, 1981), resta por assimilar na historiografia local, corrente nas escolas.
2 A historiografia curricular costuma tratar o golpe ditatorial recente como apenas o corolário da reação das classes conservadoras brasileiras às reformas sociais que o governo Goulart estava promovendo. Conforme Dreifuss, isso é apenas parcialmente verdadeiro. O IPES/IBAD foram organizados por contingentes ligados à classe conservadora, porém atuando não de modo representativo, e sim dirigista, relativamente a ela. E o seu interesse estava definido internacionalmente, na ligação dos seus elementos principais com a CIA.
3 Dreifuss utiliza documentação comprobatória de que a ação golpista foi coordenada localmente por dois institutos que tiveram base ampla de ligações políticas e influência social. O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), e o IBAD (Instituto Brasileiro da Ação Democrática). Estas duas instituições não são conhecidas na historiografia das escolas. Conforme Dreifuss, elas tiveram participação de um vasto contingente de intelectuais célebres, artistas, políticos, clero, notáveis da alta sociedade, pessoas historicamente proeminentes, e, naturalmente, altas patentes das forças armadas, integrantes da ESG (Escola Superior de Guerra). Tiveram o IPES/IBAD, também, colaboração de inúmeras empresas nacionais e multinacionais. E na cúpula de ambos os institutos, constavam os elementos de ligação com a CIA.
4 A propósito da ligação do IPES/IBAD, os institutos que coordenaram a ação golpista brasileira em 1964, com a CIA, registra Dreifuss a resposta de Niles Bond, ex-encarregado de negócios americanos, ao ser indagado se a CIA financiara o IBAD : “não sabia quem mais o estaria financiando”. (op. cit. p. 330). Já o embaixador Lincoln Gordon havia expresso não ser possível negar “a existência 'de um ou dois dólares americanos' em 1964”, na ação que desencadeou o golpe. Parece fato indiscutível hoje, quanto à revolta dos marinheiros liderada pelo cabo Anselmo, que estava este apoiado pela CIA, o objetivo sendo justificar a reação golpista (p. 159).
5 Com efeito, a propaganda do golpe contra Goulart se aproveitara da margem de insatisfação existente para radicalizar as opiniões contra as reformas governamentais que visavam sanear os problemas seculares da desigualdade. Quanto à faixa reunindo a classe média urbana de profissionais liberais - o que parece ser aquilo que Dreifuss qualifica “burguesia profissional” - os quadros médio e superior das Forças Armadas e a tecnocracia empresarial, o descontentamento era movido não só pelo decréscimo da renda e insegurança do status. Mas, especialmente nas Forças Armadas, o status parecia ameaçado justamente pelo crescente movimento reformista de massas e a incipiente agitação nos escalões menores de suas respectivas hierarquias.
6 Assim também a ação golpista obteve uma unificação de classe em torno do objetivo de derrubar a FMP, “frente de mobilização popular” que o governo Goulart fomentava. Com o objetivo de aprofundar as reformas de base, foi composta por todos os segmentos organizados da sociedade então muito atuantes, como UNE (união nacional dos estudantes), CGT (comando geral dos trabalhadores), PUA (pacto de união e ação sindical), Ligas Camponesas e sindicatos rurais. 
 7 Essas organizações estavam factualmente ligadas a aguerridas lideranças de esquerda. A derrubada da FMP tornou-se a palavra de ordem das “forças dominantes”. (p. 139)
 A organização do IBAD estava ligada nominalmente à CIA, pela interveniência do seu coordenador geral, Ivan Haslocher. O anticomunismo foi a propaganda exploradora das oposições possíveis ao surto de esquerdas organizadas, fossem as opções reacionárias algo justificadas, por parte de setores não comprometidos com ideais de radicalização revolucionária mas não necessariamente contrários ao reformismo proposto por Goulart; ou por parte de setores conservadores contrários positivamente a reformas visando melhorar o nível de vida da população e acabar com privilégios intoleráveis, por mais necessárias que as reformas se mostrassem àquela altura, devido ao incremento populacional e da consciência social.
8 A prática de formação de “aneis burocrático empresariais” por parte de elites coordenadas aos interesses de empresas multinacionais, precede o complexo IPES/IBAD. Já na época de Juscelino Kubitchek, o JK, tendo se constituído a CONSULTEC (Sociedade civil de planejamento e consultas técnicas Ltda.). O bloco de elite, atuante na entidade, mediava pedidos de empréstimos ao BNDE (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico) por multinacionais, decretos e regulamentos importantes à obtenção de acordos comerciais, tendo por exemplo sido a executora do projeto apresentado ao congresso em 1962, pelo primeiro ministro Tancredo Neves, assim como do plano governamental do petróleo. (p. 86)
9 A Consultec caracterizava-se por intervenção direta de empresas multinacionais, especialmente a Hanna Mining, mas também Bunge e Born, Light e Brazilian Traction. Goulart se incompatibilizou frontalmente com a Hanna Mining Co., pretendendo o governo controlar seus poderes corporativos. (p. 92)
10 O IPES e o IBAD foram criados no final do governo JK. O IPES seria um centro estratégico, e de operações que ampliariam os objetivos da Consultec. O IBAD devia agir como unidade tática do IPES (p. 162 e seguintes).
11 Ao ver de Dreifuss, nisso algo em desacordo com demais fontes historiadoras que consideram JK um governo exclusivamente elitista, o surgimento do complexo IPES/IBAD traduziu um descontentamento do capitalismo multinacional com o aspecto popular do governo Juscelino. Na verdade os motivos exatos do golpe são algo ambiguamente desenvolvido ao longo do texto dreifussiano.
12 Ainda que exista considerável margem de controvérsia a propósito da indústria local antes do golpe, em termos de poder ou não ser caracterizada propriamente nacional, como examinaremos oportunamente, em todo caso JK não é usualmente assimilado à opção econômica nacionalista, devido ao seu modelo de colaboração econômica internacional. Dreifuss constata, inversamente, que Juscelino não estava totalmente identificado com as exigências imperialistas. Estudaremos na parte correspondente à história do capitalismo, a intercessão histórica do imperialismo com a indústria local de modo a esclarecer mais essa questão.
13 Dreifuss informa a situação econômica local em princípios dos sixties, desde o final do governo JK. Era, segundo suas fontes, predominantemente nacional numa proporção generalizada de 65, 1%, para 34, 9% de multinacionais, em amostra de 276 grupos bilionários dos quais porém 55 grupos eram “multibilionários” por terem capital maior que 4 bilhões de cruzeiros. Na proporção generalizada, 55, 2% das empresas multinacionais eram de grupos não-americanos. E, “de um total de 144 grupos 'nacionais', somente 78 não tinham ligações bem definidas com interesses multinacionais”, configurando a maioria formas de capital misto. Ainda assim, na perspectiva conjuntural de Dreifuss, “apesar da superioridade numérica dos grupos nacionais na faixa dos grupos bilionários, eles se ressentiam de uma menor capacidade de concorrência, com sua atividade limitada por desvantagens tecnológicas, tendo de operar dentro de um mercado oligopolista controlado por companhias multinacionais”. ( p. 50)
14 A maioria das multinacionais atuando localmente, europeias, japonesas ou americanas, era líder de mercado em seu setor, e, além disso, a minoridade da participação americana é apenas aparente: “o capital transnacional americano era proeminente dentro dos grupos multinacionais bilionários”, representando o setor que mais cresceu, concentrado em produtos químicos, transportes e maquinário. (p. 50, 67). Anderson Clayton, Firestone, Goodyear, Union Carbide, General Motors, General Electric, Eastman Kodak, citadas entre as mais famosas e atuais entre um número substancial de empresas. A cobertura das citadas é bastante extensa.
15 Há atenção para o impressionante incremento da concentração fundiária desde 1950, como o número de grandes propriedades em dez anos reduzindo-se de 2,3 para 0, 98 %. Conforme Dreifuss, “o comércio agrícola estava ligado a uma grande parte da estrutura bancária”, e a maioria absoluta “dos grupos nacionais eram controlados por grupos familiares”, com exceção de apenas três. (ps. 58 a 61) Entre estes vale citar a Matarazzo, cujo percurso vem de época anterior, a do capitalismo imigrante de princípios de século coberta pelo estudo de Warren Dean que oportunamente examinaremos. A empresa de propriedade da família é um modo de organização empresarial alternativo à integração em holdings transnacionais, diferindo desta, conforme Dreifuss. Porém, se este reporta a crítica ipes-ibadiana ao patrimônio familiar, como constatamos na parte consagrada ao business de mídia norte-americano, inversamente, a empresa familiar era também o dominante na formação desse capital.
16 Dreifuss menciona ainda a atuação, desde 1962, da ADELA, organização supranacional originada como think tank liderado por Rockefeller e o complexo Agnelli (Fiat) com vistas ao controle sobre o capital internacional. Atuava como grupo de pressão sobre o governo local, sendo integrada pela contribuição de fundos de inúmeras multinacionais americanas, europeias e japonesas, listadas por Dreifuss cobrindo nada menos que duas páginas  (p. 497 a 500). Com representação aqui ao longo da ditadura, atuou junto à IFC ( International Finance Corporation), instituição semelhante, com investimento registrado em algumas dezenas de empresas funcionando localmente. A composição do capital é porém complexa, como demonstra as listas de Dreifuss sobre a operação no Brasil dos grupos Mellon, Rockefeller e Morgan através de companhias. Vemos a Coca-Cola controlada por Rockefeller, aparecendo também na lista de participações de Morgan.
17 Dreifuss atribui, pois, desde o pós-guerras, um capital transnacional atuante como adaptação do que havia sido um capital nacional restrito à era Vargas. “O capital nacional, que fora predominante no governo de Getulio Vargas, conseguiria coexistir de modo significativo somente em sua forma associada ou em empresas pertencentes ao Estado. Mesmo nesse último caso, o capital transnacional teria ainda um papel central através de joint ventures (empreendimentos conjuntos) entre o Estado e corporações multinacionais, além de exercer controle multinacional parcial das ações de empresas estatais brasileiras”. (p. 49) O que após a ditadura se converteu em controle majoritário, configurando ordinariamente venda das estatais na Globalização, liquidando-as assim para efeitos de propriedade nacional.

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2 = A formação do IPES-IBAD : da CIA ao militarismo e o Nazismo

1 O centro em organização e propagação do golpe de 1964, os dois institutos designados IPES/IBAD, foram como constatamos, precedidos por outras formas de intervenção das multinacionais na economia e governo local. O estudo de Warren Dean intitulado “A industrialização de São Paulo” é importante referenciar como uma visão acurada do processo formativo da economia local, que desfaz alguns pressupostos precipitados, há muito sedimentados. Quanto à Vargas, Dean reporta que já havia orientação institucional estadunidense. As missões Niemeyer e Cook representaram importante aspecto da evolução capitalista local nessa época, não obstante o sempre atribuído compromisso nacionalista de Vargas. Dean sublinha que na verdade, o Vargas ditatorial dos anos trinta nunca agiu contrariamente à orientação do governo estadunidense. E décadas depois, as ações ipes-ibadianas relatadas por R. Dreifuss caracterizam-se por uma amplitude propriamente política de atuação golpista, mas agora visando ocupar cargos do Estado nacional diretamente pelo empresariado multinacional ou seus representantes juramentados.
2 A estrutura do comando inicial do IPES foi iniciativa do norte-americano Gilbert Hubert Jr., então operativo empresário do Rio de Janeiro, que cooptou o anticomunista Paulo Ayres Filho, de quem surgiu o convite à integração de Leopoldo Figueiredo. Este último tornou-se o líder do IPES em São Paulo durante a acensão presidencial de J. Quadros, subsequentemente tendo-se gerado escritórios ipesianos em todo o país. Entre os nomes mais importantes da agremiação do Rio, o líder parece ser Glycon Paiva, sendo porém importante citar A. T. Azevedo Antunes, Antonio Galloti e José Garrido Torres.
3 O objetivo dos empresários era impedir a penetração da esquerda, mas de fato inovações do capitalismo multinacional estavam por trás da organização, como se pode comprovar pelo teor do estudo de Dreifuss. A ligação desses inícios com oficiais de reserva, e, depois, com a ESG (Escola Superior de Guerra, fundada em 1948), apenas explorou uma ideologia já presente localmente, das Forças Armadas como “poder moderador” - expressão que entre nós significa o poder que era atribuído ao imperador, antes da República, de modo que a ele cabia um papel de resolução autoritária acima das decisões partidárias do legislativo. Essa ideologia não seria de fato típica dos objetivos do capitalismo multinacional, que almejava ele mesma concentrar o poder absoluto.
4 O que se pode deduzir do estudo de Dreifuss é que o capitalismo multinacional usou as Forças Armadas nacionais, mas não tendo nelas qualquer objetivo intrínseco além de mantê-las sob sua égide.
5 Não obstante, a associação ideológica da ESG com o capitalismo internacional, o alinhamento estadunidense de sua formação e a exigência de alguns dos seus cursos presenciais nos USA, é opção característica sua desde a fundação. Em geral, a supervisão norte-ameriana da Polícia brasileira na forma de apoio em vários níveis, mas especialmente em treinamento tático contra-insurrecional, crescendo na antecedência do golpe, está documentada (p. 115 e seguintes).
6 A criação do complexo IPES/IBAD foi alardeada pelo líder conservador Raul Pilla, como um acontecimento auspicioso para as classes superiores. Ivan Hasslocher, o coordenador geral do IBAD é então referenciado por Dreifuss: “integralista... e que foi nomeado agente de ligação da CIA (Agência Central de Informações) dos Estados Unidos para o Brasil, Bolívia e Equador”. (p. 102) O grupo pioneiro foi constituído na década de cinquenta, conforme Dreifuss, ainda, “pelo ex-integralista Marechal Inácio de Freitas Bolim, instrutor da ESG”, e empresários como G. Borghoff, Behring de Mattos e Alberto Byngton Jr. Alguns outros atuantes do complexo IPES/IBAD são citados em conexão ao integralismo.
7 Ora, não obstante não haver referência dreifussiana da ideologia nazista na ação ipes-ibadiana, pelo contrário, sendo esta assimilada aos rumos novos da burocracia tecnocrática do empresariado estadunidense e multinacional, o termo “integralista” significa, na história local, ter sido adepto da versão nacional do nazi-fascismo na segunda guerra. Dreifuss se limita a utilizar o termo, sem comentar ou agregar nada a propósito. Porém o “integralismo” dos “camisas verdes” sendo a versão local do nazismo, liderada por Plinio Salgado - o gesto do partido aqui era o braço erguido e a exclamação “anauê” - seria importante que ele houvesse desenvolvido mais essa questão. (Nota 1)
8 Ao ver de Warren Dean, o varguismo foi a opção local contra o integralismo, por outro lado o partido fascista integrado ao italiano tendo relação com o capital industrial privado de  imigrantes como expressão de sua verdadeira ideologia. É geralmente afirmado que na época da segunda guerra, Getúlio Vargas, então presidente que visava a ditadura pessoal do seu “Estado Novo”, não subscreveu o “integralismo”. Não obstante a ditadura varguista do Estado novo ter manifesta tendência fascista, utilizando como modelo do seu “trabalhismo” a “carta del lavoro”de Mussolini, porém com uma característica corporativista local contrastante com a ênfase passional do líder carismático nacionalista totalitário, típico do fascismo italiano. A propósito, o estudo de Oliveira, Velloso e Gomes (“Estado Novo, ideologia e poder, Zahar Editores, coleção Política e sociedade, s.d.). Warren Dean não considera porém que Mussolini fosse menos corporativista, esta a ideologia do industrial local.
9 Vargas foi homenageado por Plinio Salgado, que lhe devotava simpatia, tendo por certo imaginado que seria chamado ao governo por Getulio. Porém, assim que Vargas colocou todos os partidos políticos na ilegalidade, o partido integralista revoltou-se, obtendo adesão de grande número de descontentes, mas ostensivamente a rebelião sendo constituída pelos milhares de integralistas insubordinados devido ao fechamento da sede do partido, na rua Sachet paulista. O chefe militar da revolta foi o General João Candido Pereira de Castro Junior, que não era integralista.
10 A biografia de Getulio, da coleção”Biblioteca da História” (São Paulo, Editora Três, 1974) registra o “putsch integralista” (capítulo XV). O plano constava de uma série de sequestros e atentados a chefes civis e militares, assim como na tomada do Palácio e assassinato de Getulio. O tenente Fournier, integralista, que estaria de serviço no Palácio Guanabara, na época residência do presidente, na madrugada de dez a onze de maio de 1938, facilitaria a invasão, vinda de um casarão da Avenida Niemeyer. Porém, ao que parece por inexperiência, os revoltosos não chegaram a entrar, sitiando-o pelos pátios e arredores, iniciando o tiroteio.
11 A invasão por Plinio Salgado fez de refém Getúlio e a família no interior do Palácio Guanabara, detendo estes apenas revólveres para defesa, junto a uns poucos servidores internos. Getulio comandou pessoalmente a resistência. Alzira Vargas, sua filha, tentava obter socorro pelo telefone, por meio da linha com o palácio do Catete, mas vários canais estavam interceptadas, e, com quem obtinha comunicação pelo operador do Palácio do Catete, sede do governo, descobria estar na mesma situação sitiada. Como o próprio General Goes Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, em seu apartamento. Ou não ter meios de intervir, como o ministro da justiça, Francisco Campos. Mas o telefonema ao chefe de Polícia obteve êxito, prometendo ele que enviaria tropas. Com efeito a intervenção policial obteve a rendição de Salgado. As investigações posteriores verificaram a participação de diversos políticos na insurreição do nazi-fascismo “integralista” contra Vargas. Parte da direita se juntava assim aos presos esquerdistas, estes que Vargas perseguia implacavelmente, às vésperas da instauração ditatorial do seu regime.
12 O ensino de História trata de hábito o integralismo como capítulo totalmente ultrapassado após 1945. Dreifuss nada esclarece a propósito da ligação de Hasslocher com Plínio Salgado ou com o partido integralista. Mas documenta, como vimos, a relação do “integralista” Hasslocher com a CIA na ocasião de sua liderança do IBAD. Como podemos aquilatar, Dreifuss segue nisso o senso comum da neutralização ideológica do nazi-fascismo desde o pós-guerras, não havendo concatenação desse dado com o restante da sua exposição. Inversamente, Cl. Julien, que estudamos inicialmente, expõe com minúcia a ligação com o nazismo, do homem utilizado pela Cia na derrubada do governo representativo do Irã, nos anos cinquenta, e mesmo na presente exposição vamos encontrar testemunhos nesse sentido a propósito de outros regimes militares instalados do mesmo modo na América Latina, assim como colaboração de nazistas contra os movimentos de libertação nacional africanos.
13 Já na parte que cobre a história do capitalismo, iremos comprovar com Mirow a composição de carteis dos tempos do nazismo na configuração pós-guerra das empresas multinacionais.
14 Sem qualquer referência a essa questão, na perspectiva de Dreifuss a atuação do IBAD evolui coerente à projeção política do Conselho Superior das Classes Produtoras, o CONCLAP do Rio de Janeiro, que tinha membros integrantes do IBAD, assim como tinha também o American Chambers of Commerce.
15 O IBAD organizou dois canais de sua atuação. A ADEP (ação democrática popular), patrocinada pela estação da CIA no Rio de Janeiro, com vistas a coordenar a ação de entidades e de pessoas ideologicamente compatíveis, para ação política, e influenciar o processo eleitoral. O seu colegiado nacional se compôs, com Hasslocher, do mineiro Leopoldino, então ex-auxiliar do gabinete de Janio Quadros, o general Barbato, Vicente Barreto e Raimundo Padilha, do partido UDN. O líder nacional da ADEP era o presidente da ADP (Ação democrática parlamentar), João Mendes.
16 Dreifuss não comenta a importância de sua própria revelação sobre uma relação direta da CIA com o partido UDN. Mas a importância dessa revelação é evidente na história local. A composição do golpe militar ditatorial seguiu, pois, uma orientação anterior, cujo tipo ideal foi Lacerda e cujo alcance se pode aquilatar pelo fato de ter sido responsável pelo suicídio de Vargas. Na composição local, trata-se de um anti-nacionalismo radical como ideologia da classe média urbana importadora do capital-imperialismo, que teve expressão a partir da consolidação da indústria nacional com envergadura de base. A UDN mergulhara no ostracismo político à época de Juscelino, que representou porém apenas a ilusão de uma composição do capital nacional e estrangeiro. Porém uma vez convergindo com a ação da CIA, a UDN mostrou-se útil ao objetivo deletério do imperialismo, traidor da composição que já proporcionara dominância à orientação imperialista. A qual porém não bastava ao objetivo de total domínio sobre países a serem progressivamente miserabilizados, submetidos a governos nazistas.
17 Como segundo canal de atuação do IBAD, criou-se a Incrementadora de Vendas Promotion S. A, tendo Ivan Hasslocher por diretor-proprietário, e seu irmão Claudio Hasslocher como gerente em São Paulo. A Promotion funcionou como o canal publicitário do IBAD, e de patrocínio de suas atividades encobertas.
18 ADEP, IBAD e Promotion compartilhavam os escritórios bem equipados e funcionários administrativos, assim, por exemplo, Francisco Lampreia, administrador da Promotion, era assessor do presidente da ADP, João Mendes. Os escritórios em nível nacional eram geralmente dirigidos por oficiais reformados do Exército, a maioria coronéis e generais, cuja ação era coberta no Congresso pela ADP. A representação do IBAD na igreja foi feita pela ligação com o Centro Dom Vital, cujo líder extremista de direita era Gustavo Corção, e a organização tecno-clerical Opus Dei, que agia coordenada à ADP e ao IDN (instituto democrático brasileiro) presidido por Gladstone Chaves de Mello, deputado do PDS (Partido Democrata Cristão). É evidente que a designação de democrata atrelada a essas entidades não é congruente com o que habitualmente se designa democracia, o liberalismo político.
19 Além disso, Dreifuss registra o próprio IBAD como uma das principais operações políticas da CIA no Rio, sendo “basicamente uma organização de ação anticomunista”. Instituições anticomunistas associadas ao IBAD foram OPAC (organização paranaense anticomunista), a CLMD (cruzada libertadora militar democrática) e o MAC (movimento anticomunista). A ADP (ação democrática parlamentar) serviu de ligação ibadiana no Congresso. Dreifuss registra extensa lista de ativistas do núcleo IBAD/ ADEP/ Promotion, que seria excessivo registrar aqui. Mas conservando-se pertinente observar a participação do Padre Leopoldo Brentano, um dos organizadores dos Círculos Operários e das Marchas religiosas em 1964, as gigantescas passeatas contra o comunismo, que antecederam e favoreceram o golpe. E de Eudes de Souza Leão, por ser ligado ao mesmo tempo à multinacional Sambra, à Adesg e à Esg.
20 Dreifuss exibe detalhado estudo sobre a ação do complexo IPES/IBAD no meio estudantil e cultural, entre as classes médias e apoio feminino, nos sindicatos e movimentos camponeses, entre as classes trabalhadoras industriais, nos partidos políticos e Congresso. Configurando ação obviamente populista, não é contudo assim conscientizada por Dreifuss, que inversamente a caracteriza como ação orgânica de classe ou de elite, contra o “populismo” ambiguamente relacionado à mobilização social reformista visando melhorar o nível de vida da população.
21 Nessa multifacetada ambientação de suas coordenadas, o êxito do IPES/IBAD foi relativo a tendências ideológicas já existentes, ou obtendo penetração junto a oportunistas de modo a obter controle sobre sindicatos nas regiões do país. Não obteve relevo entre os estudantes e uniões trabalhistas já orientados por opções antagônicas, assim como entre grupos empresariais nacionalistas que eram igualmente antagonizados pelo capital multinacional. Entre estes cabe ressaltar Antonio Ermirio de Morais, cujo filho ironicamente colaborou com os ipesianos, tendo cargo no Instituto.
22 A ação ipes-ibadiana cobria tanto a movimentação social no campo como na cidade. Os objetivos de contenção dos movimentos camponeses como ULTAB (União dos lavradores e trabalhadores agrícolas do Brasil) e MASTER (Movimentos dos agricultores sem terra), organizados subsequentemente às pioneiras Ligas camponesas da década de cinquenta, e que mostravam assim o desenvolvimento da organização dos trabalhadores agrícolas nesse ínterim, foram complexos. Era de fato crucial, porém, uma vez que o movimento dos trabalhadores do campo não descendia de organizações sindicalistas dos dois governos Getulio Vargas, o ditatorial e o eleitoral. As Ligas Camponesas foram organizado pelos comunistas de partido, mas, em seguida, um outro tipo de Liga se estabeleceu, com muito êxito, em torno de Francisco Julião, em Pernambuco, considerado por Dreifuss o estado chave do Nordeste.
23 O IPES/IBAD tencionava obter o controle dos rumos da reforma agrária, substituir a propaganda comunista pela sua, nos termos de “reformas cristãs e democráticas do estatuto da terra”, porém as classes conservadoras rurais não aceitariam qualquer alteração do seu regime de propriedade latifundiária. O IPES/IBAD manteve o apoio aos conservadores, mas utilizou-se de grupos católicos e instituições de assistência social para atuar encoberto por eles. Por outro lado, a contenção dos camponeses por meios violentos foi deixada a outras organizações e à ação dos proprietários de terras.
24 Atuou como canal Ipes-ibadiano na região Nordeste, o SORPE (serviço de orientação rural de Pernambuco), reunião de aproximadamente vinte e seis padres da zona rural promovida por dom Eugenio Sales, e bispos de Pernambuco. O SORPE era apoiado pela CLUSA, a liga cooperativa dos Estados Unidos financiada parcialmente por instituições receptoras de fundos da CIA.
25 A penetração ipes-ibadiana mais explícita contudo, não deixava de ocorrer, como o Padre Melo que aceitava abertamente financiamento e assistência do IBAD, atuando contra políticos importantes da esquerda local. O objetivo de contenção das lutas camponesas especialmente pernambucana era premente à elite orgânica. Como Dreifuss observa, “Obviamente, a visão de uma massa de quarenta milhões de camponeses mobilizados, libertando-se do jugo rural e tomando de assalto as cidades, representava uma perspectiva atemorizante para os proprietários de terra e a burguesia também”. (p. 300).
26 As relações trabalhistas no campo eram tão ruins até aí, que atestavam usos feudais, como o “cambão”, algo semelhante à talha medieval, como obrigação do camponês trabalhar por alguns meses apenas em benefício do patrão, nesse caso por um salário inferior ao que recebia regularmente. Em Pernanbuco, segundo Dreifuss, a pobreza era de fato escandalosa.
27 Na cidade e no campo, a ação ipes-ibadiana também cobriu grupos identitários específicos, a exemplo do apoio feminino. Dreifuss registra entre outros exemplo, a criação da CAMDE (Campanha da mulher pela democracia), pouco antes das eleições de 1962. Foi ideia do vigário franciscano carioca de Ipanema, Leovigildo Balestieri, Glycon Paiva e Golbery do Couto e Silva. A CAMDE era liderada por Amélia Molina Bastos, irmã do General Antonio de Mendonça Molina. Como instituição feminina, a CAMDE realizou inúmeros programas promocionais anticomunistas desde 1962 até o golpe. Tornando-se muito proeminente, com especial destaque para seu papel de agitação política, atuando harmonicamente com elites políticas e militares, assim como com a Globo, especialmente o jornal e a rádio. (p. 296)
28 Cerca de quinhentas corporações multinacionais e associadas, entre Rio e São Paulo, responderam ao esforço do IPES/IBAD, tornando-se cooptadas ao papel de contribuintes de meios do desenvolvimento da ação do IPES.
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3 = A abrangência do golpismo
3 . I) Brasil e América Latina:

1 Dreifuss não deixa de informar sobre a coordenação da ação ipes-ibadiana local, com o processo geral americano latino. O desenvolvimento de organizações que congregavam novos setores profissionais e empresariais nas respectivas sociedades americano-latinas, similares à ação ipes-ibadiana em patrocínio, objetivos e psicologia dos recrutados, mostra-se coordenado estreitamente a esta.
2 Sendo instituições congêneres, nem sempre ostentando os mesmos métodos operativos, ainda assim todas “cooperavam em esforços conjuntos e tinham, em certos casos, concomitância de membros individuais e corporativos”(p. 170) Havia também ligação do IPES/IBAD com instituições ideológicas similares na Europa, Japão e Estados Unidos.
3 A lista de Dreifuss cobre mais de uma página de siglas historicamente importantes ligadas ideológica e operacionalmente ao IPES/IBAD em vários países, assim aqui registro apenas, entre as citadas, as latino americanas que são relacionadas à Cia ou nominalmente ao complexo ipes-ibadiano, e algumas internacionalmente preponderantes.
4 Ligadas à Cia estão citadas a CEAS (Centro de estudios y acción social), controlada pela estação da Cia em Bogotá. A CERES (Centro de estudios y reformas económico sociales), controlada pela agência da Cia em Quito, Equador. Vale citar, também brasileiras, a SEI (sociedade de estudos interamericanos) e a Fundação Aliança para o Progresso. A CEMLA (Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos) e o Instituto de Investigaciones Sociales Y Economicas, eram associados ao complexo IPES/IBAD por meio de Dênio Nogueira, que tinha assim atuação contomitante nessas agremiações.
5 Entre as que extrapolam o cenário latino americano, em particular a LAIC (Latin American Information Commitee), e o CED (Commitee for Economic Development), imprimiram “coordenação internacional e apoio logístico ao IPES e organizações congêneres”. O escritório latino-americano de Nelson Rockefeller fundou o The United States Interamerican Council, e especialmente Rockefeller atuou como fator de instigação das atividades dessas instituições, assim como promotor de sua causa entre as grandes companhias norte-americanas, a fim de que se convertessem em patrocinadoras da sua campanha eleitoral local em 1962.


3. II) O IPES/IBAD e o golpe no Chile

1 Ainda conforme a conjuntura americano latina, conforme Dreifuss, “os líderes do IPES finalmente exportavam para países vizinhos a perícia adquirida na campanha para depor João Goulart, envolvendo-se em operações internacionais de desestabilização de seus regimes”. Sem dúvida, segundo ele, “os líderes do IPES também atuaram na preparação da campanha que depôs o presidente Juan Torres, da Bolívia, em 1971”. (p. 424) A estrutura da ação ipesiana segundo consta, atuou como o modelo para a derrubada de Allende do Chile, em 1970. Sem dúvida “membros do IPES trabalharam de perto com associações empresariais e profissionais chilenas”, e o MAC, grupo paramilitar anticomunista, forneceu armas e dinheiro a grupos semelhantes no Chile”, juntamente com GAP, uma linha ativa do IPES, sendo elemento de ligação entre Brasil e Chile. Na interpretação de Dreifuss, o Brasil foi o centro de propagação do golpismo na América Latina.
2 Que as técnicas organizacionais do 1964 brasileiro foram utilizadas no Chile para derrubar o governo, é registrado até mesmo em revistas de circulação conhecida como “Isto é”, segundo Dreifuss. (p. 461) Este documenta assim, no caso chileno, a participação de Fuenzalida, um empresário chileno que veio ao Brasil para associar-se a Gilbert Huber Jr. na articulação do golpe chileno. O golpe ocorreu em 1973, Fuenzalida iniciou a articulação aqui em 1970. A sua campanha de angariação de fundos, efetivada junto ao IPES, obteve apoio substancial da CODESEC, “Companhia de estudos sociais, econômicos e culturais”, mantida com contribuições brasileiras e dos Partidos democratas cristãos italiano e alemão.
3 A CODESEC “se envolveu na mobilização das classes médias e com outras campanhas anti-Allende” no Chile, segundo Dreifuss. Também o chileno Orlando Sáenz envolveu-se com a preparação golpista, resultando tornar-se assessor financeiro do governo militar chileno após o golpe.
4 Conforme Eduard Korry, diplomata estadunidense, ele e outro chileno compareceram a uma reunião anti-allende, de executivos de multinacionais, na Park Avenue 410, o endereço do escritório de David Rockefeller. A reunião foi convocada por Thomas Mann, então Subsecretário de Estado, “o homem de [Lyndon] Johnson para assuntos da América Latina”, que falou aos presentes da importância da derrubada do governo democrático do Chile para a Casa Branca. Os homens da CIA presentes “assumiram o comando a partir dali”.
5 Convocavam pequenas reuniões onde instruíam as multinacionais sobre como fazer sua parte contribuindo com dinheiro, influência e materiais, para eleger Eduardo Frei, não obstante ele não ser direitista, como porém opção viável a Allende. Segundo Korry, citado em Dreifuss, Thomas Mann convocou a reunião logo após o golpe de 1964 brasileiro, “seu mais importante 'êxito'“. Quanto a este, segundo Korry, inequivocamente “envolveu a CIA, membros-chave de multinacionais do grupo Rockefeller e o Pentágono, que ordenou a ida de uma força tarefa-naval com para-quedistas ao Rio de Janeiro, “a fim de eliminar qualquer resistência à deposição de João Goulart”.
6 O embaixador americano Korry, que reenfatiza a similaridade dos casos Goulart e Allende inclusive quanto à psicologia de ambos, havia no Chile vetado a proposta secreta do Council of the Americas para um programa conjunto de desestabilização do governo Allende, orquestrato pela Cia e grandes empresas. Em decorrência, MacCone, ex-chefe da Cia e executivo da ITT, contactou Richard Helms, diretor da CIA no Chile, para em nome do presidente da ITT, Harold Green, lançar uma campanha intensiva na Casa Branca, de anulação da decisão de Korry. O lobbyng foi coordenado a atividades de empresários chilenos ligados ao Council e à CIA. É evidente que a opção de Korry contra a opressão chilena é algo extremamente defensável, porém quanto ao parentesco psicológico de Goulart e Allende parece haver certo exagero. Allende era comunista, não obstante não ter mudado o regime do país ao ser eleito, e resistiu ao golpe, tendo por isso sido assassinado brutalmente na própria sede do governo pelos golpistas. Goulart não era comunista, ou não era assim visto pelos comunistas mesmo que fosse reformista nacionalista, e acatou o golpe, inclusive tendo recusado as sugestões de resistência por parte de seus colaboradores.
7 É interessante que McCone tenha sido antes chefe da CIA e Helms seu representante, porém quando McCone se tornou diretor do ITT, permaneceu também como assessor remunerado de Helms. Conforme Dreifuss, Enno Hobbing, diretor do CED e do Council for Latin America, havia trabalhado de perto com o IPES e estava envolvido na campanha contra Allende, tendo sido agente da CIA.








3. III) Fundos Internacionais e Corrupção Parlamentar

3.III.1) = A fraude eleitoral / 1962


1 Viagens de ipesianos aos USA foram constantes, e encontros internacionais das entidades tiveram papel proeminente, sendo destacado o encontro de Nassau (Bahamas). Empresas aéreas como Cruzeiro, Varig, Panair, supriam imediatamente necessidade de transporte ao IPES, sem cobrar as passagens. Conforme Dreifuss “os serviços aéreos seriam de incalculável valor na coordenação do movimento militar para a derrubada de João Goulart”. (p. 205)
2 A propósito do quesito financiamento, vimos que Lincoln Gordon não ocultou seus conhecimentos da ligação de fundos da CIA com as atividades ipes-ibadianas. Dreifuss cita Langguth, que relata o fato de ser do interesse da CIA manter embaixadores informados, porque “algumas operações não poderiam ser disfarçadas”, e durante o período golpista a CIA aumentou o número de seus consulados brasileiros. (p. 226) Conforme Langguth, citado por Dreifuss, “Certamente Gordon conhecia tudo sobre o IBAD. Ele estava ciente não só de que o IBAD era o meio da CIA canalizar dinheiro para as campanhas políticas locais, mas também que tais contribuições clandestinas eram uma absoluta violação da lei brasileira” (p. 205, 206).
3 A violação da lei por meio de fundos destinados está historicamente documentado por Dreifuss na cobertura das eleições de 1962. A ação ilegal de corrupção do legislativo para obter domínio sobre os políticos está informada em dois níveis, o do IPES e diretamente o da CIA. Quanto ao primeiro, conforme Dreifuss, “O Ipes e o Ibad chegaram à decisão de se estabelecer no Congresso, e a estratégia combinada para a sua ação seria coordenar os esforços do IBAD com aqueles do Grupo de Ação Parlamenar do IPES, ou seja, 'estabelecer o eixo Ivan Hasslocher-Mello Flores na Câmara dos Deputados e no Senado” (p. 320).
4 O “eixo”, como passou a designar-se a associação de Ivan Hasslocher e Mello Flores para manipular o resultado eleitoral, coordenaria “ação discreta” na Câmara dos Deputados e no Senado, assim “isentando o IPES de responsabilidade pública”, e tudo isso junto à manipulação dos sindicatos por pelegos. A ADP foi um meio de ação ipes-ibadiana, adotando a técnica de voto em bloco, para frustrar as propostas do governo Goulart. Segundo Dreifuss, “A equipe do General Golbery asseguraria o acesso de Mello Flores às propostas de emendas e projetos a serem introduzidos no Congresso pelo bloco nacional-reformista bem antes de sua definitiva apresentação”. (p. 323) Em contrapartida, “os projetos técnicos” - conforme a propaganda de redução de projetos políticos a parecer de técnicos - serviam para atenuar perante a opinião pública o verdadeiro objetivo de apresentação de “leis antidemocráticas e desestatizantes”. (p. 322)
5 A rejeição a Santiago Dantas, que representava os industriais nacionais, foi um meio da elite forçar o gabinete Goulart a uma crise de remanejamento constante do ministério. Ao ver de Dreifuss, Santiago Dantas era a última oportunidade da burguesia brasileira compor racionalmente com o trabalhismo, e a rejeição dele um dos fatores principais do fracasso do capital nacional.
6 O patrocínio de candidatos nas eleições foi feito não por critério partidário, mas por orientação ideológica. Os candidatos financiados pelo Ipes/Ibad/Adep tinham que assinar um compromisso ideológico: lealdade ao Ibad acima da lealdade ao seu partido, anticomunismo, defesa dos investimentos estrangeiros, união à ADP liderada pelo udenista João Mendes. (p. 324) Onerosas pesquisas de opinião conduziam as estratégias de campanha, e a mobilização por patrocínio de organizações criadas para terem peso nas eleições, entre outros, o Movimento Adulto da Ação Católica, Liga Eleitoral da Família, a ALEF do comandante Moura na Marinha, endossada pelo Conselho Nacional dos Bispos do Brasil. (p. 325)
7 Dreifuss cita em nota o estudo de Schlesinger, “Memorandun to the White House”, a propósito dos principais componentes dos grupos de extrema-direita no clero. (p. 355) Encontravam-se na mais alta hierarquia da igreja, convindo com os objetivos tradicionalistas do IPES porque a alta posição hierárquica estava personificada pelas famílias antigas e conservadoras, e devido ao apoio financeiro. A posição ideológica desse grupo clerical, conforme Schlessinger, era “violentamente anticomunista” porém, “dentro do país, acusam serem de origem comunista qualquer manifestação contra investimentos estrangeiros e qualquer reforma agrária”.
8 Conforme o memorando de Schlessinger à Casa Branca, os objetivos dessa retórica violenta do grupo de conservadores católicos ligados ao IPES/IBAD “atraíram jornalistas e são de fato a inspiração principal para O Globo, o jornal vespertino do Rio de Janeiro.”
9 Entre os políticos, prossegue Schessingler informando contarem com a adesão de Carlos Lacerda, governador da Guanabara [atual município do Rio de Janeiro] e da liderança da União Democrática Nacional – UDN.
10 O dinheiro requisitado por Mello Flores para operar em Brasília foi obtido a princípio por um acordo com Rui Santos, representante baiano no Congresso, que recebia apoio financeiro da Usiminas, joint-venture nipobrasileira, e da Américan Chambers of Commerce.
11 Mas a necessidade era de fundos de muito grande porte. Só para Amaral Peixoto, presidente do PSD, seriam necessários seis Jeeps. Entre os vários itens que requisitavam gastos, Dreifuss informa sobre a compra de candidatos com capacidade de angariar votos. Glycon de Paiva sugeriu a Mello Flores a quantia de seis milhões por candidato, mas ele respondeu ser esse o preço de candidatos da Paraíba e outros estados menores. Já entre Ceará e Bahia, o preço era mais alto, São Paulo e Rio sendo os mais caros. Em média, seriam necessários 15 milhões para cada parlamentar. Para os demais quesitos da campanha a ajuda requisitada era de 1.000.000 de dólares (p. 328). Para o financiamento de duzentos e cinquenta deputados e candidatos, o Ibad gastou mais de cinco bilhões de cruzeiros. (p. 330) [como estou usando o meu texto de um dos arquivos do pen drive, havendo variações reais ou intrusadas, vale informar que em meu escrito inicial constava a referência de Dreifuss ao fato de que a cobertura eleitoral da CIA a candidatos abrangia para alguns estados, os dois opositores, de pseudo-esquerda e direita, o resultado assim pouco importando pois de qualquer modo os candidatos já tinham assinado compromisso com os requisitos do patrocínio. ] 
12 Basicamente Dreifuss registra denúncias pelo IPES-IBAD usarem três fontes de renda para financiar a intervenção dos grupos de ação da elite orgânica, no processo eleitoral e demais atividades: caixinha mantida por empresários estrangeiros e nacionais, agências governamentais estrangeiras e o “fundo do trigo”. A caixinha se torno recurso comum, sendo constatado também no Chile. (p. 320)
13 Outros meios ilegítimos e ilegais de campanha pró-capital estrangeiro estavam sendo mobilizados pela CIA. Com efeito, Dreifuss comenta que “as eleições brasileiras de outubro de 1962 foram consideradas o auge de uma das maiores operações políticas, jamais empreendidas pela Divisão Ocidental da Cia Americana.” Naquele ano, a estação carioca da Cia “e suas muitas bases nos consulados distribuídos pelo país, que muito oportunamente haviam sido aumentados em número”, estavam comprometidas num campanha de milhões de dólares para financiar o anticomunismo eleitoral em todos os níveis de postos, federais, estaduais e municipais. Já as chamadas “ações contextuais”, organização de propaganda de grande impacto para impressionar a população, relacionavam-se a mais instituições com apoio direto do governo americano. A Embaixada Americana sustentava o que designou “ilhas de sanidade”, como lugares do cenário político que apresentavam os requisitos para realização de empreendimentos conjuntos.
14 O embaixador Lincoln Gordon não deixou de perceber o significado das eleições de outubro, relatando em um telegrama ao Departamento de Estado, que estava se configurando uma “guerra política de grande importância, que determinará sua orientação doméstica e externa e, com ela, a maior parte do continente”. Convertendo-se a semana anterior às eleições em “um momento estratégico único”. Tratava-se especialmente de impedir qualquer obstáculo à remessa de lucros ao estrangeiro, por empresas multinacionais aqui instaladas, como também de obter penetração de livros traduzidos em Português e cooperação máxima de militares americanos e brasileiros visando o anticomunismo.
15 O próprio Gordon atuava na obtenção de apoio multinacional às ações do complexo IPES/IBAD, na substância de dinheiro proveniente da CIA e empresas americanas privadas. (p. 205) A reserva de fundos para atuação da CIA é usual, sendo utilizada para ação em qualquer país, como na Itália na década de quarenta, para “revigorar a Democracia Cristã”. (p. 330)
16 Na operação eleitoral-golpista brasileira, a intervenção ipes-ibadiana e da Cia nas organizações trabalhistas foi notável. O Ibad foi particularmente ativo no movimento sindical do Paraná, onde levantou apoio para o governador Nei Braga.
17 Independente das várias intervenções documentadas por Dreifuss em vários estados, no sentido da doutrinação anticomunista do operariado, a fim de criar líderes trabalhistas que pregassem as “recompensas” oriundas da colaboração dos empregados com o capitalismo, conforme o vocabulário norte-americano, é importante registrar organizações políticas a que o complexo Ipes/Ibad estava relacionado.
18 Ressalta a importância da AIFLD, American Institute for Free Labor Development, organização ligada ao sindicalismo, aos empresários americanos e às agências governamentais como AID e CIA (p. 315).
19 O “instituto” foi inaugurado nos Estados Unidos em 1961, como uma ramificação da AFL-CIO, a referência do movimento sindical norte-americano. O livro que já citamos, de Claude Julien, revelou que a Cia dispunha por vezes de fundos oriundos da AFL-CIO, hauridos de contribuições dos trabalhadores americanos sindicalizados, para suas ações anticomunistas e de propaganda em todo o mundo. Mas conforme Dreifuss, o financiamento do próprio “instituto” provinha de mais de cinquenta multinacionais, como Anaconda, Pan American Airways, Merck, Ebasco, etc.
20 Peter Grace era o responsável pelo instituto e homem de cobertura para ações trabalhistas da Cia, apadrinhado para o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, por seu amigo John Kennedy. O Business Group for Latin America substituiu o departamento, mantendo porém as atribuições de orientar o desenvolvimento local.
21 Como centro trabalhista controlado pela CIa e financiado pelo AID, o “Instituto” tinha Serafino Romualdi como diretor executivo, o qual testemunhara que ele possuía ramificações em todos os países da América Latina e Caribe. (p. 315) Romualdi é uma prova do envolvimento do “instituto” com a CIA, uma vez que acumulava ainda o cargo de agente da Divisão das Organizações Internacionais da Cia. (p. 316) Conforme Dreifuss, “para minar o apoio a João Goulart através do movimento sindical organizado”, substituindo assim as reformas exigidas pela população consciente por reformas escravistas e de prejuízo à população brasileira, “a Embaixada dos Estados Unidos trabalharam arduamente para apoiar os sindicatos de direita e opor-se ao Comando Geral de Trabalhadores, dominado pela esquerda, e que havia se tornado a maior e principal confederação de sindicatos do Brasil”.
22 Conforme Dreifuss, o Movimento Sindical Democrático - MSD, originou-se como organização controlada pelo complexo IPES/IBAD, com seu lema “Deus, propriedade privada e livre empresa”. O MSD era um dos receptores da ajuda e da orientação do AIFLD para o patrocínio de reuniões e o estabelecimento de cursos sindicais”. (p. 317)
23 É interessante registrar que a sigla MDB, conhecida como o único partido de esquerda permitido durante a ditadura, e que hoje é o PMDB, começou porém como sigla do “Movimento Democrático Brasileiro” de São Paulo, organização ligada ao IPES. Mantinha um sítio-escola naquele estado, com cursos de quatro meses para militantes de sindicatos e trabalhistas, de linha ideológica basicamente anticomunista. (p. 311) Na vigência da ditadura o partido de direita era o ARENA, e só eram permitidos estes dois mencionados.
24 Para formação de líderes e ativistas de sindicatos de direita pelo complexo IPES/IBAD, foi importante a Confederação nacional de Círculos Operários - CNCO. Tinha cobertura ibadiana e recebia desta um orçamento mensal, segundo carta de Rubem Fonseca, diretor do IPES, ao Padre Velloso, que coordenava a Confederação , de dois milhões a dois milhões e quinhentos mil cruzeiros. (ps. 310, 347) O Ipes financiava também a Escola de Líderes da PUC (Pontifícia Universidade Católica).
25 Dreifuss também assinala que “o próprio IBAD era um canal financeiro de fundos multinacionais para o IPES” (p. 207), destacando entre os contribuidores das contas Ipes-ibadianas e Promotion, a Texaco, a Shell, a Esso Brasileira, a Standard Oil of New Jersey, a General Electric, a Cia. de cigarros Souza Cruz, a Belgo-Mineira, a General Motors, e mais nomes de famosas empresas listadas [ verNota 2 ].

3.III.2) = O disfarce do dinheiro e o golpismo partidário


1 Os problemas de aumentar, ainda assim, as contribuições, e disfarçá-las, de modo que não se tornassem de conhecimento geral, foram solucionados por diversificados meios. As contribuições tornaram-se regularmente integradas à rotina de Associações de Classe, como a dos Banqueiros e o Centro de Indústrias, CONCLAP ou sindicatos como o das Companhias de Seguros. Assim protegendo ao mesmo tempo os nomes das empresas contribuintes que pertenciam às associações. Os “ipesinhos”, seminários regulares, eram meios pelos quais também podiam ser feitas contribuições, na forma de pagamentos pela participação, e especialmente a agência do IPES em Friburgo tornou-se unidade permanente de seminários e recebimento de fundos. (p. 203)
2 Mas a forma mais proeminente de camuflar doações foi a utilização de empresas de propaganda e relações públicas, clientes das grandes corporações multinacionais. Estas poderiam canalizar suas participações, através de fundos destinados a empresas de propaganda que estavam apoiando o IPES. Especialmente a “Denisson Propaganda, ofereceu seus préstimos para operar como um conduto para a 'limpeza do dinheiro'“. Também participaram dessa operação a “Gallas Proganda, Norton Propaganda e Multi Propaganda”. (p. 204)
3 Na emergência da era pós-moderna, ou seja, na descolonização e organização desenvolvimentista do terceiro mundo, os Estados Unidos tiveram pois um papel de liderança na defesa dos interesses imperialistas. Porém, conforme tenho ressaltado, ao contrário do que a polarização da época induzia a crer, não se reduziam aos seus, mas eram do mesmo modo europeus e japoneses. Assim também devemos destacar que, ao contrário das impressões causadas pelo neoliberalismo de Reagan na década de 80, na medida em que este presidente esteve muito ligado ao problema remanescente da descolonização, a opção imperialista entre os norte-americanos não se restringe ao partido republicano.
4 O golpe brasileiro foi de fato articulado pelo partido democrata nos USA, de Kennedy ao sucessor Lyndon Johnson. Conforme Dreifuss: “Quando o Coronel Vernon A. Walters, eficiente homem de informações que se tornaria mais tarde vice-diretor da CIA, voltava da Itália em direção ao Brasil, para, ostensivamente, tornar-se adido militar, foi informado que Kennedy 'não se oporia à deposição do governo de João Goulart, se fosse substituído por um estável governo anticomunista que ficasse ao lado do mundo 'livre' ocidental'“. (p. 172)
5 A injunção kennedyana ao golpe militar subvencionado e organizado pela CIA na América Latina foi uma política bem definido como objetivo do partido democrata estadunidense, não um mero fator de circunstância na administração Kennedy, conforme documentado em Dreifuss.


3.III.3) = A articulação do Poder na Cultura e Mass Mídia
1 A penetração ideológica da “elite orgânica”, conforme a designação da ação ipes-ibadiana em Dreifuss, envolve o tema dos mass midia de um modo abrangente. Vimos que a ênfase da ação estava na articulação dos movimentos sociais, populares e de elite, no campo e também na cidade, com uma linha populista óbvia como dirigismo cartilhesco que devia assim deslocar a conscientização real dos problemas e a organização competente correlata, por estereótipos tradicionalistas ligados à ideologia da autoridade e poder. Assim a penetração de mass midia deveria ser uma linha ativa especialmente coordenada, como seria esperável.
2 Hoje talvez um dos mais importantes focos na articulação desse item seria o fato da penetração ipes-ibadiana ter criado uma linha única de publicação, entre periódicos de mass midia, ideologia do fascínio televisivo e o mercado editorial de livros. Criou-se uma política editorial permanente de controle sobre as publicações, enquanto os programas de televisão se tornavam pré-direcionados pelo comando ipes-ibadiano.
3 Por exemplo, a Saraiva, que hoje é um referencial único nacional de cadeias de livrarias por seu número de lojas, já naquela época detinha importância editorial, e propôs ao IPES um plano de publicações “através do qual a Editora Saraiva daria ao Grupo de Doutrina de São Paulo a oportunidade de examinar os trabalhos que ela editasse, podendo a qualquer hora, publicar os panfletos e traduções do IPES”. (p.195) A Companhia Editora Nacional também se ofereceu para publicar livros do IPES. São citadas ainda várias, entre as quais a Agir e O Cruzeiro. O importante escritor Rubem Fonseca atuou como líder do IPES, supervisionando as atividades do GPE, o Grupo de Publicações/Editorial. Também Augusto Frederico Schmidt e Raquel de Queiroz, grandes nomes das letras, tiveram participação ipesiana.
4 A Franklin Book Program utilizou o GPE como canal de divulgação de editores americanos. Quanto à penetração ipesiana em rádio, cinema, cartuns e televisão, Dreifuss a trata em termos de “guerra psicológica”. O complexo ipes-ibad “saturava o rádio e a televisão com suas mensagens políticas e ideológicas”, alistando “um grande número de escritores profissionais, jornalistas, artistas de cinema e teatro, relações públicas, peritos da mídia e de publicidade” (p. 232). Os jornais Estado de São Paulo, O Globo, Folha de São Paulo, a Tribuna da Imprensa de Helio Fernandes, o Diário de Notícias, as televisões Record, Paulista, a já citada Rádio Globo, eram canais diretos ipesianos.
5 Dreifuss registra o expediente do jornal “O Globo”, pelo qual notícias de impacto junto à opinião pública, ostensivamente fantasiosas, eram disseminadas sem revelação da fonte, como a notícia sobre a instalação de um Gabinete Comunista no Brasil pela União Soviética. (p. 233) Essa linha de ação seria tão abundantemente exemplificada até hoje, que nem valeria a pena insistir nisso, dado ainda o caráter trivial de que o fenômeno se revestiu a partir da década de setenta. Não sendo já apenas notícias, mas cenas de novelas, desenhos animados e filmes, os quais são decalcados do cotidiano para serem porém distorcidos quanto à mensagem de modo a estigmatizar “tipos” referenciais, que representam a boa consciência ou a esquerda, para promover o contrário. Ou atribuir feitos e ditos meritórios, sabidamente oriundos desses estigmatizados, àqueles tipos inteiramente contrários na realidade, mas que se quer promover. Aqui vemos contudo a articulação ipes-ibadiana como localmente a origem histórica concreta da cooptação de mass midia na dominação imperialista.
6 Dreifuss comenta por exemplo como “a reação da imprensa foi extremamente desfavorável à liderança da UNE em particular e ao congresso [ o XXIII da UNE, pouco antes do golpe] em geral. O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo especialmente deram ao congresso intensa cobertura e muito comentário editorial negativo”. ( p. 285) Mas o Ipes mantinha também ligações com várias Universidades - ao que parece foi o IPES quem estabeleceu o Curso de Ciências Políticas e Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Campinas. Mantinha relações com o Caco, o Centro Acadêmico da faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
7 Vários outros nomes de jornais atuantes em estados brasileiros são citados, assim como os nomes de seus organizadores que colaboravam com o Ipes, sendo porém ocioso repetir aqui, exceto Arlindo Pasqualini, diretor das empresas Caldas Junior, importante complexo empresarial do setor de mídia do Sul do país. Não obstante ser irmão do ideólogo do PTB, Arlindo era considerado político promissor contra o brizolismo sulista. E a coluna Seção Livre assinada por Pedro Dantas, pseudônimo de Prudente de Morais Neto, que era canal do IPES no jornal O Estado de São Paulo.
8 A propósito, o retorno de políticos de esquerda após a ditadura, tendo sido exilados ao longo desta, resultou em governos decepcionantes, apesar da confiança que o povo depositava em suas candidaturas. Muito do deplorável quadro partidário atual está ligado a essas origens na anistia e redemocratização. Como relatei, na época das eleições a governador, eu mesma fui atropelada por um prefeito do  partido de Brizola, o PDT, aquele o prefeito de São João de Meriti, que estava dirigindo bêbado na Avenida Antonio Carlos, em frente ao Forum. Voltava eu do estágio à tarde na biblioteca do IBQN (Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear), pois cursava então Biblioteconomia de manhã na Uni-Rio, quando ocorreu o acidente. O prefeito bêbado do PDT responsável pelo acidente sendo Manoel Valença O'Passo, chapa do carro nº 1313, conforme registro na reportagem do jornal O Dia (janeiro de 1987).
9 Eu mesma não tenho a lembrança do acidente, pois a gravidade chegou a ponto de acordar no hospital público, demorando para lembrar-me até do meu nome, sem saber porque ou onde estava. Minha filha que estava na creche, ficou esperando até bem mais tarde, pois eu a pegava regularmente ao voltar do estágio, até que a família pudesse fazê-lo. Tendo sido eu, como relatado por testemunhas, socorrida pela polícia, que deteve o prefeito no local do acidente e o submeteu ao teste de bafômetro - o que permitiu a minha família pressionar insistentemente ao telefone para que ele pagasse o internamento na Beneficência Portuguesa, onde fui tratada e me recuperei do grave acidente. Nem o prefeito, nem o PDT, ofereceram-me qualquer auxílio ao tratamento ou apoio no hospital público, e logo a rede pública tendo recusado manter minha internação, estando eu porém com febre e apresentando quadro grave. Além disso, não obstante ser partido dito de esquerda, nunca houve qualquer oferecimento do PDT ou do prefeito de qualquer indenização, auxílio ou qualquer contato humano após o acidente. Só por meio de processo movido por mim poderia haver indenização, porém eu fiquei em tratamento, em casa, sendo demasiado envolver-me com os encargos do processo. Não me senti incentivada a retornar à Uni-Rio. Já durante os anos noventa cursei filosofia na Uerj.
10 Na época da biblioteconomia, eu participava discretamente do movimento estudantil, que apoiara na eleição de 1986 o também anistiado Gabeira - do partido da consciência ecológica, por isso designado “partido verde”, obviamente sem ter nada a ver com o integralismo. Não obstante a opção eleitoral na ocasião, nunca tive qualquer relação com partidos políticos nem com a UNE. Solicitaram-me porém os integrantes do departamento de alunos da Uni-Rio, o encargo de prosseguir a organização do departamento, pois estes integrantes do grupo responsável estavam se formando e tinham a meta de obter um Centro acadêmico. A solicitação explica-se por eu ter, inversamente, iniciado aquele ano na faculdade, de modo que pudesse arcar com a direção do departamento e continuar  o processo de obtenção do Centro após as férias de Janeiro. O que efetivamente não ocorreu, devido ao acidente.
11 A Uni-Rio tinha na época por reitor o famoso teatrólogo Guilherme Figueiredo, irmão do último presidente da ditadura militar, o General João Figueiredo. Com efeito a reitoria exibia uma impressionante galeria de fotos dos presidentes militares, desde Castelo Branco.
12 Na Uni-Rio reencontrei professores com quem eu havia travado conhecimento no segundo grau, e que neste foram colaboradores do meu grupinho, em nossa tentativa de fazer um grêmio ligado à UBES, a união dos estudantes secundaristas. Porém, como já estávamos nos formando, só havíamos conseguido um jornalzinho, devido ao apoio do nosso professor de física, que publicamos com uma entrevista de Heloneida Sudart, que eu fiz na rádio, ao final da apresentação de Cidinha Campos.  Nessas circunstâncias eu iniciava meus contatos com a cultura humanística, a leitura de textos teóricos e jornais engajados. Meu interesse anterior havia sido apenas literatura e poesia, que eu havia começado a apreciar pela influência, na infância, do meu padrinho Durval Messonier Alves, poeta romântico, parente do famoso pintor oitoscentista.  Tendo praticado a atividade de escrita de diário íntimo e poesia desde  infância e adolescência, agora no segundo grau consagrei-me à atividade de escritora, e me tornei simpatizante do comunismo marxista - lembro-me como eu costumava ir ao Centro da Cidade para obter o jornal clandestino A Voz da Unidade, que na época relatava o nascimento da CUT, ganhando a eleição dos trabalhadores (concorrendo com o “Conclat”). Mas logo depois que completei o segundo grau, tive contato com amigos muito ligados à vanguarda estética, e entre eles conheci as críticas sobre as posições censórias do sovieticismo à liberdade de expressão da Vanguarda. A geração “80” do Parque Laje considerando-se porém já numa posição de questionamento de época, em torno da questão sobre o que poderia ser novo, que já não houvesse sido praticado na Vanguarda.
13 O pt surgia nesse ínterim como esquerda nova, relacionada tipicamente ao operariado da industrialização transnacional
que havia crescido na ditadura, parcialmente ligada a Gramsci e outros expoentes do marxismo, conforme estudos a propósito, mas também relacionado a Felix Guattari como testemunhou este no seu “Cartografias do desejo”, Lula oriundo do movimento operário de São Paulo. A disputa petista impossibilitou que lideranças da esquerda tradicional como o brizolismo alcançasse a presidência na primeira eleição livre na redemocratização, em 1990 - até aí houve o interregno da presidência civil, porém por voto indireto, assim conservador. O racha das esquerdas, entre o pt e a tradicional brizolismo, resultou numa inicial presidência da direita, daí o assalto à poupança por Collor de Melo e depois o esquema de corrupção com seu assessor, o “PC”, assassinado escandalosamente, seguindo-se o impeachment.
14 Mas, como se sabe, a conquista da presidência pelo pt em 2004 resultou no fracasso total da esquerda no país, com o impeachment de Dilma (2016), por corrupção comprovada do pt, o qual não apresentou qualquer reforma durante a estadia no governo. Pelo contrário, foi totalmente coerente com os ditames das multinacionais e do neoliberalismo econômico, imposto aqui formalmente desde o final dos anos noventa, pelo governo direitista de Fernando Henrique Cardoso - conhecido porém até aí como sociólogo importante de esquerda na história das ideias local.
15 Retornando ao tema da articulação do golpe de 1964, registra Dreifuss que a campanha do Grupo de Opinião Pública do Ipes envolveu a elaboração de um quadro da suposta infiltração comunista, com uma lista de denunciados circulando entre empresários e outros formadores de opinião. Patrocinava também “Manifestos” de categorias, solicitando intervenção contra o comunismo, como o Manifesto das Enfermeiras às Forças Armadas, o Manifesto das Classes Produtoras, O Manifesto dos Estudantes de Direito da Universidade Mackenzie.
16 Realmente porém havia ressentimento de estudantes que não se identificavam com a hegemonia da esquerda na UNE, como Dreifuss comprova por fac-simile agregado ao seu livro e cobertura de caso. Aí revela-se exemplo de elementos estudantis revoltados com o atribuído direcionamento da UNE pelo comunismo, com a preponderância do ISEB, uma agremiação de intelectuais nacionalistas, e da “história nova” de Sodré nas faculdades.
17 Esses elementos foram ostensivamente úteis ao IPES, porém ficaram descontentes depois do golpe, pelo Ipes não ter eliminado prontamente os esquerdistas nos serviços públicos, de modo que se sentiam expostos a sabotagens pessoais por estarem identificados como pró-ditatoriais. Também mostravam-se extremamente ressentidos porque o Ipes não os integrava agora em seu próprio esquema de operações, por vínculo empregatício. Pode-se aquilatar que o Ipes não tinha intenção de se envolver com figuras de imagem exaltada, passionais ou folclóricas na rotulação de “direitistas”, que haviam contudo antes sido usados e ficado conhecidos por esquemas ipesianos. [Nota 3] . Também capitais nacionais que haviam contribuído com o golpismo, nem por isso ficaram garantidos depois, sendo o caso da Panair, que tornou-se insolvente conforme Mirow (referenciado à frente). Porém também se conhece o truque das falências, que Mirow não reporta, mas foi noticiado comum na época, uma vez que empresários lucravam por não precisarem pagar contas e salários.
18 Em geral a programação ipesiana de televisão era preestabelecida quanto ao conteúdo, por exemplo, as respostas a entrevistas ou declarações de convidados, envolvendo formação de opinião sobre temas relevantes de decisão política, escolhidos pelo IPES. Nas universidades o Ipes era proeminente em Centros de pesquisa, organização de diretórios acadêmicos e seminários. O Ipes montou um esquema de cinema em ônibus, de modo que os filmes politicamente tendenciosos podiam assim ser levados a favelas ou bairros populares, ou eram produzidos para elites e mostrados em agremiações exclusivas como Escola de Polícia de São Paulo, Lyons Clube, Faculdade de Medicina de São Paulo. Filmes especialmente voltados a plateias nas Forças Armadas também foram produzidos.
19 Uma tão abrangente gama de atividades não podia ficar desapercebida do governo e das agremiações favoráveis a Goulart. Segundo Dreifuss, ocorreu de fato que Goulart obteve provas contra o IBAD e o desarticulou antes do golpe, neutralizando assim a ação possível de Hasslocher. Porém o governo representativo não logrou provar a ligação do IBAD com o IPES, e este prosseguiu a ação de classe na derrubada do governo representativo.
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4 ) = A Estrutura do Estado Militar
1 Após o golpe, o complexo IPES/IBAD provou sua liderança, em meio porém a certa instabilidade produzida pela expressão de contingentes não ligados a ele, que foram mesmo assim preponderantes na conjuntura golpista, como Costa e Silva e Mourão Filho. Segundo Dreifuss, a direção dos militares havia sido perdida pela iniciativa destes opositores, que deflagaram precipitadamente o golpe e surpreenderam os ipes-ibadianos.
2 Assim se demonstra o dano causado: “O domínio completo da ESG dentro da hierarquia do Exército havia sido derrotado [pela iniciativa do General Mourão Filho], e o troupier General Costa e Silva, apoiado por um grande número de oficiais de médio escalão e extremistas de direita tornou-se Ministro da Guerra, um posto para o qual o General Jurandir B. Mamede havia sido preparado”. (p. 396)
3 Não obstante, segundo Dreifuss, “apesar desse revés, a elite orgânica do complexo IPES-IBAD conseguir colocar-se na direção do Estado e ocupar os postos-chave da burocracia civil e da administração tecnocrática, enquanto a ESG, lentamente, mas com segurança, conseguiu suplantar um grande número dos seus oponentes e, a longo prazo, controlar uma boa parte dos postos militares-chave bem como obter uma posição de supremacia no ensino e na doutrinação da Forças Armadas, onde sua ideologia de segurança e desenvolvimento passou a dominar”. Com efeito, os componentes do complexo IPES/IBAD apoiavam Castelo Branco.
4 O homem do IPES na redação do Jornal do Brasil da época, Wilson Figueiredo, sumariou a situação: “O bombocado não é para quem o faz, e sim para quem o come”. Apesar do General Mourão Filho desencadear o golpe, “sem dúvida foi a elite orgânica... quem colheu os frutos da vitória...”, de modo que “o complexo IPES/IBAD e os oficiais da ESG organizaram a tomada do aparelho do Estado e estabeleceram uma nova relação de forças políticas...” na instância do poder. (p. 397)
5 Dreifuss é algo confuso quanto a isso, relatando mais de uma reunião de militares visando um golpe com status de “primeira”, mas o Ipes/Ibad sempre eram de algum modo relacionados por algum participante que o recomendava. O que resultou entretanto foi um levante bastante imprevisto pela ação de classe.
6 Segundo Dreifuss, a estratégia do Ipes foi assumir o controle não pugnando diretamente onde havia sido derrotado, mas sim instalando o SNI, o Serviço Nacional de Informações, agência de “inteligência” que se criou logo após o golpe.
7 Na verdade o SNI congregou todo o peso do aparelho golpista, tornando-se o núcleo da ação repressiva, seja contra grupos realmente atuantes na resistência ao regime, ou contra representantes da mentalidade nacionalista quaisquer. A repressão homicida e violenta atingiu inúmeros contingentes da cultura nacional, de modo algum comunistas, pelo contrário, alguns como os músicos tropicalistas eram até estigmatizados pelo partido comunista.
8 “Os elos do IPES com o SNI”, segundo Dreifuss, permaneceram tão “fortes” como se pode observar pela sucessão dos chefes iniciais do Serviço Nacional de Informação, todos ligados ao IPES: Golbery do Couto e Silva e o Coronel Ivã Perdigão. Conforme Dreifuss, “No campo das informações, o IPES permaneceu como um fonte independente para o SNI, e como sua ligação imediata com a comunidade empresarial. Em troca, o IPES recebia informações para a ação do SNI”. (p. 423)
9 O General Golbery, com efeito, levou para Brasília os arquivos completos de informações do Ipes, reunidos pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura que havia sido chefiado por ele mesmo, e onde haviam sido compilados dados sobre 400.000 brasileiros. Este arquivo serviu de base para a trama informativa do SNI, conforme Dreifuss. (p. 422, 423)
10 Ventilou-se aqui, nas vésperas dos anos oitenta, a posição do líder do Ipes, H. Boilessen, como agente da CIA. Houve rumores a propósito na revista Veja. A suspeita procedeu da campanha de levantamento de fundos, feita por Boilessen, para a criação da OBAN, a chamada Operação Bandeirantes, cujo fundador ostensivo foi o General Canavarro Pereira. Em 1970, a OBAN foi substituída pelo DOI-CODI (Departamento de operações de informação - Centro de operações de defesa interna), o temível serviço de repressão política que funcionou na ditadura militar, e que atingiu cruelmente a muitos perseguidos do regime, criado supostamente pelo General Menna Barreto. Era basicamente um CCC, comando de caça aos comunistas, conforme uma sigla atribuída pelos populares na época. [ Nota 4 ]
11 Dreifuss não referencia a montagem do departamento da Censura Federal, que passou a funcionar de modo a dele depender qualquer publicação circulando em território nacional. Nada revela de sua orientação ou modo de funcionamento. O que podemos compreender pelo fato do livro de Dreifuss ter sido publicado ainda na ditadura - assim vemos que também não faz referência à ação repressiva, torturadora genocida, para acusados de comunismo, por parte do SNI e Doi-Codi, tratamento incompatível com qualquer tratado internacional para prisioneiros de guerra - sem nem mesmo chegar a ser este o caso. Especialmente as universidades foram afetadas pela repressão política.
12 A censura, porém, é a pista para a união destes dois fatos aparentemente incongruentes, o caráter tecnoburocrático modernizante do discurso golpista, mas o resultado histórico de regressão ao esquema de dependência econômica da indústria estrangeira e produção nacional agrícola, moldada pelo tradicionalismo latifundiário.
13 O nacionalismo de fachada que o regime militar sustentou ao longo dos anos setenta, entretanto paralelamente a alguma modernização científica das escolas, logo expressou-se numa série de campanhas de mentalidade ruralista passadista. O “sítio do picapau amarelo”, a propaganda dos encantos da nossa natureza virgem no “Amaral Neto, O Repórter”, o elogio da “TFP” (terra, família, propriedade), sigla da mentalidade preconceituosa a ponto da negação psicótica da realidade quanto a mudanças comportamentais onipresentes na sociedade contemporânea – nisso não muito diferente da própria esquerda sovieticista que desaprovava a geração “pop”.
14 Na produção pensante local, a resistência e crítica à ditadura imperialista contrária inteiramente aos interesses da população brasileira, não deixou de refletir a mudança relativa à propaganda modernizante, centrada na imagem do way of life norte-americano. O humorista Stanislaw Ponte Preta satirizou o que designou FEBEAPÁ, “festival de besteira que assola o país”, registrando, entre outros, o famoso dito: “ninguém vai levantar a saia da mulher mineira” - de um político basbaque de direita, pronunciando-se contra a mini-saia.
15 A censura foi o canal do verdadeiro propósito nazista-tradicionalista, como aparato do regime. Roberto Schwarz relacionou a nova propaganda passadista, estereotipando o nacionalismo pela restrição à imagem do interiorano meio boçal, com um estratégia de contrabalançar a tendência ao resgate das raízes que estava ocorrendo na resistência à ditadura por parte de teatrólogos, o “tropicalismo”, etc. Enquanto que, como registra Nelson Wernek Sodré em “A Fúria de Calibã, Memórias do Golpe de 64” (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994) ocorriam detenções de artistas de televisão para averiguações, quando suspeitos de subversão por tangenciarem assuntos ou convidarem pessoas não gratas ao regime, e a frequente invasão da cena de teatro por agentes de segurança que destruíam com violência as instalações. [Nota 5]
16 O próprio Sodré foi indiciado, por sua “História Nova”, não obstante ser militar, e ao que parece não ter sofrido a violência física que documenta na publicação a propósito de casos que conheceu - se bem que de muito menor impacto que outros informes conhecidos. Em todo caso, conforme reporta, a instauração de “IPM” (inquérito policial militar) procedia apenas por denúncia de qualquer profissional por parte de qualquer procedência, nas universidades amiúde ocorrendo que docentes usassem este expediente para incriminar colegas.
17 Porém Schwarz, ao que parece como comunista, não apoiou a penetração de mass midia do “tropicalismo” e outros expoentes da transvanguarda, considerando-os inconsequentes por importarem os novos meios tecnológicos que assim alienavam o significado da mensagem estética. Além disso ele criticava a temática das raízes que os novos grupos de teatro, estratégia de esquerda e resistência, estavam promovendo, como meio de provocar o comodismo da plateia e expressar algum rancor pelo que a essa altura havia se sedimentado como consenso da cumplicidade da classe média com o golpismo.
18 Ao que parece, Schwarz privilegiava a linha do progressismo ilimitado, não nacionalista. Mas fica a dúvida sobre que motivos estariam por trás da guinada passadista ditatorial de meios dos anos setenta. [ Nota 6]
19 Ora, ainda hoje, o interiorano boçal travestido de jocosidade piegas é o código da Globo para referência a “nacionalismo” - não obstante a homogeneização dos costumes e dialetos pelos próprios mass midia, e a produção cultural das regiões, que sempre foi rica e multifacetada, não restrita a desinformação. Independente de qual tenha sido a trajetória das elites após o golpe, o estereótipo interiorano é congruente com a esterilização temática provocada pela censura.
20 Além do SNI, o Ipes controlava também o ministério mais importante do país, o Ministério do Planejamento. Ele foi chefiado por Roberto Campos, figura central da CONSULTEC, professor da ESG e ex-embaixador nos Estados Unidos, associado ao Ipes. A estratégia do Ipes para assegurar a posição de Campos foi a criação, logo depois do golpe, da ANPES, Associação Nacional de Planejamento Econômico e Social, por um grupo de diretores de grandes bancos e indústrias, sendo Campos o secretário geral. O Ministério do Planejamento estava ligado intrinsecamente ao SNI, e a equipe dos assessores do ministro tinha maioria de membros oriundos da Consultec e do Ipes.
21 Dreifuss enfatiza, a propósito da equipe de Campos, que surgia como inovação, pois, “contrariando a crença já estabelecida, os membros significativos do Ministério do Planejamento não eram técnicos, mas tecno-empresários, se não simplesmente industriais e banqueiros”. (p. 427) Além disso, o Conselho Consultivo de Planejamento (CONSPLAN), onde Roberto Campos tinha o cargo de secretário executivo, criou-se em 1965, como instituição central para “assegurar a participação [da empresa] privada no processo de planejamento”. Composto na maioria por associados e colaboradores do IPES, ligava-se a vários elementos da vida nacional relacionados a instituições chave que então funcionavam, mas também “pelegos” de sindicatos, nomeadamente Ary Campista, José Rotta, Paulo Cabral, e Odilo Nascimento Gama. (p. 426)
22 Aqui tocamos num ponto importante, de modo a ficar totalmente definida a natureza da operação da tomada do Estado pela CIA. A operação destinou-se a apropriação dos cargos democraticamente estabelecidos pelo sistema de representação civil, por banqueiros e negociantes de empresas multinacionais, que por esse meio esperavam poder reduzir a instância legal à exclusiva expressão dos seus interesses imediatos, dominando a coisa pública por meio de decretos, de modo a ter total domínio da propriedade e consciência privada, e poder de eliminação brutal das populações que resistissem.
23 Não há dúvida sobre que esse esquema de apropriação do Estado em países do terceiro mundo pelo capital-imperialismo, que hoje apenas expressa a maior efetividade com que poderia jamais sonhar obter, uma vez que conta agora com a dominação de monopólio microinformático, podemos designar articulação business/Estado. Algo bem mais abrangente do que estudamos como articulação business de mídia/Executivo estadunidense, ainda que obviamente estejam interligadas. A maior abrangência é obtida a partir de que não há apenas a neutralização do Legislativo por desvio carismático à imagem do Executivo, mas domínio efetivo sobre todas as instâncias legais. Assim diferenciando-se o tipo de domínio do capitalismo sobre o Estado esperável no primeiro e no terceiro mundos. Não obstante, é nítido que uma abrangência especializada nunca será menos poderosa, se o âmbito da restrição é o Executivo norte-americano.
24 Quanto a interligação das oligarquias do business de mídia imperialista, que controlavam os canais de financiamento de campanhas na América, com as operações da CIA americana, não conheço estudos, porém seria inconsequente supor negáveis. Hoje são manifestas, praticamente, pela ligação do business info-midiático com o controle virtual da produção escrita pela CIA e serviços associados em todo o mundo dominado pelos monopólios info-midiáticos do capital-imperialismo - se bem que não dispomos de fontes documentadas, é algo inteiramente previsível.
25 As duas articulações, como temos visto, nada definem relativamente aos papéis histórico, sociológico e político do Estado, ou à sua significação antropológica. São, inversamente, a desestatização das sociedades, por grupos que visam dominá-las por estratégia de guerra social a partir da reserva do poder econômico. Vale insistir que o montante do poder econômico necessário não é obtenível por nenhuma forma de exploração exclusivamente nacional e legal, sendo inversamente oriunda das associações de cartel monopolista ilegais com as práticas imperialistas sobre o terceiro mundo, perpetuando-se há quinhentos anos.
26 A seguir do seu domínio sobre o SNI, do qual se desdobrou o açambarcamento dos ministérios, a estratégia dos ipesianos obteve domínio tanto na Casa civil, com o ipesiano Luiz Viana Filho, como na Casa militar do General Ernesto Geisel. E logo os generais presidentes tornaram-se expressamente os favorecidos pelo Ipes, como Castello Branco e Geisel.
27 Dreifuss estuda minuciosamente a estrutura institucional do regime militar, mostrando a sua íntima associação com a orientação do Ipes. Em todos os setores da vida nacional o Ipes colocou a sua marca, sendo de sua proveniência recursos que hoje são corriqueiros como o FGTS , que, porém, devemos lembrar ter sido a estratégia do Ipes para contrabalançar a sua concessão à vontade dos empresários, de modo que o FGTS substituiu a lei de estabilidade empregatícia de João Goulart, assim como foram também proibidas as greves. Os salários foram violentamente achatados pelo Ipes, segundo Dreifuss, ainda que nunca se tenha assistido até agora o descalabro da contínua suspensão de pagamentos de servidores públicos, com cínicas promessas reiteradamente adiadas de liberação dos valores devidos,  ou de valor baixíssimo por suspensão dos aumentos previstos pela lei há anos, como está ocorrendo agora pela ocupação do Planalto pelo “pt” ou seu “vice” (PMDB paulista). Houve uma exceção no governo de Moreira Franco em Niterói (RJ), o que causou porém enorme escândalo - e é significativo que após ter se eclipsado por tanto tempo, hoje em dia este político esteja de novo em evidência, assim como Collor, que roubou a poupança pública em 1990, está agora no senado devido a ter-se exaurido o prazo da inegibilidade desde o impeachment. Color, Moreira e Dorneles Vargas são o trio prosélito da sangria neoliberal contra o Estado e de assalto direto ao bolso dos cidadãos.
28 Vemos como tem sido inevitável referenciar a atualidade, em se tratando de implementações que se verificaram ipesianas após o golpe. O que demonstra a articulação do regime como o sistema que estrutura todo o capitalismo planejado internacionalmente na cena da descolonização afro-asiática e rivalidade bi-polar de URSS e USA. Toda a estrutura ministerial e institucional do país foi de fato moldada pelo Ipes-Ibad e Cia.
29 O INPS expressa o controle político ipesiano sobre o trabalho, assim como o Ministério da Previdência Social. Especialmente deve ser ressaltado o papel do Ipes na política educacional que estruturou as instituições de ensino e curriculuns após o golpe. São conhecidos acordos entre o Mec-Usaid e instituições norte-americanas que pretenderam controlar o sistema nacional de ensino. Mas conforme Dreifuss, o Ipes teve atuação proeminente.
30 O costume ipesiano de parodiar métodos de intervenção cultural da esquerda, mas privando-os dos conteúdos de conscientização correlatos, expressa-se aí na criação do Mobral, após a cruzada ABC de alfabetização, protagonizada por um pastor protestante norte-americano. O Mobral utilizou o método Paulo Freire, mas expurgando-o dos conteúdos filosóficos e políticos. De fato não aprovo esse método, que considero confusão psicologicamente inaceitável de público e privado, além de ser impossível, quando a psicologia lida com a necessidade de informação como algo comum a todos os seres vivos, o jargão de pedagogos freirianos referindo-se a informação essencial à formação de profissionais como “depósito” similar ao depósito bancário,  na “cabeça” do aluno. Algo verdadeiramente absurdo. Porém Dreifuss documenta a utilização. Em todo caso, já reportei que na mentalidade escolar nas décadas de setenta e oitenta, bem inversamente à atualidade, havia alto senso de individualidade, e o ensino estava laicizado, desconhecendo-se mistura da veiculação das matérias com “identidade” ou demagogia familiarista.
31 Na estruturação do capitalismo local, Dreifuss documenta a abrangência do Ipes. Embraer, Sudene e canais de crédito agrícola, BNH, e inúmeras instituições chave foram também oriundas de pessoal do Ipes - assim vemos quanto ao BNH, sistema de habitação popular, que originou-se com o programa de Sandra Cavalcanti, conhecida política, conferencista do Ipes. Porém depois do desentendimento de Carlos Lacerda, de quem Sandra Cavalcantei era protegida, com o governo, ou devido ao interesse em privatizar a construção de habitações, o projeto BNH foi assumido por megaempresários da construção, como Carlos M. G. de Almeida, e Herry Cole, com direção de Mario Trindade, colaborador do Ipes. A orientação exclusiva do IPES preservou-se daí para a frente neste setor da política habitacional, já estando programaticamente assimilada pelos personagens de liderança sucessivos. [Nota 7]
32 Toda a estrutura industrial de aço-mineração e petroquímica, assim como política de eletricidade, tiveram do mesmo modo o comando assumido por ativistas e colaboradores do IPES, cuja penetração alcançou praticamente todos os ministérios, e os modulou à sua maneira, visando acesso máximo de empresários e banqueiros. Não surpreende, pois, que se tornasse “notável”, o que Dreifuss designou “a coincidência de seus interesses particulares com o papel específico desempenhados pelos empresários na administração pública.” (p. 447)
33 A articulação Banqueiros-Cia-Governo não foi desestruturada na redemocratização. Ao contrário, o sistema foi construído com a finalidade de assegurar a continuidade, pela eliminação de toda a possibilidade local de iniciativa e capital independentes. Atualmente o sistema está atuando em dois níveis de ilegalidade e crime contra a população. O roubo direto, na forma de operações inconstitucionais de apropriação do erário, como o roubo da poupança por Collor em 1990, e na atualidade o roubo do salário dos funcionários públicos . E a dominação de lavagem cerebral através de monopólio de toda informação corrente, escrita privada, educação e documentos públicos, articulado a fascismo sobre a vida privada por canais de mídia e invasão micro-informática. [ Nota 8]
                Os computadores são intrusados por espiões e sabotadores,  que impedem uso regular, além de impingidos por monopólio de multinacional Microsoft que condiciona aversão à escrita por dispositivos de direcionamento ideológico e impedimento factual da atenção.  Quanto ao plano salário, consiste numa operação de transferência direta do dinheiro dos salários públicos para o bolso dos banqueiros, pelo seguinte esquema. O salário do servidor público, cuja dedicação à função é exclusiva,  é temporariamente suspenso pelo governo – a operação começou no ano passado. Para cobrir as despesas, o assalariado usa recurso de empréstimo bancário imediato como o assim designado “cheque especial” no exato valor do salário, esperando que assim que o salário entrar cobrirá o valor. Porém o governo não paga o salário atrasado conforme o valor integral, mas apenas por parcelas, o que implica que o cheque especial não é coberto. Ou seja, a partir do primeiro mês de atraso, o assalariado passa a ter uma conta de juros descontada mensalmente pelo banco, sendo que os juros são escandalosos no país, mais de dez por cento ao mês, e assim terá que pagar mensalmente até o valor ser reposto pelo governo, o que não ocorrerá porque mesmo que o governo comece a atualizar o que está devendo – décimo terceiro, dois meses de defasagem- ele o fará por parcelas. Um  salário de dois mil e quinhentos reais, rende ao banco setecentos reais por mês desde o primeiro mês de atraso do governo. Como os atrasos e pagamentos picados já duram um ano, o esquema resulta em que quanto menos o assalariado recebe, mais ele paga ao banco. Ou seja, em um ano de atraso constante e defasagem de valor do salário por pagamento picado, o assalariado deu oito mil e quatrocentos reais ao banco. Não se tem portanto previsão de como o assalariado deixará de ser escravizado ao banco pelo governo, nem o que fará para cobrir as despesas. O esquema implica portanto que as contas individuais dos assalariados públicos estão sendo usada para repasse direto do dinheiro do governo, isto é, dos impostos, para o bolso do banqueiro.
               Enquanto isso, está havendo genocídio da segurança estadual por incremento de crime em nível de calamidade pública, porém não sendo do interesse do governo federal que haja segurança aos cidadãos privados, se são bandidos da jaez dessa espécie de plano salário que estão circulando nas vias públicas, sem comportamento civilizado. Que o governo não tem o menor interesse em repor a segurança,  mostra-se por que não há providência eficiente, contingentes federais de exército são enviados apenas em número cinicamente insuficiente. As prisões que a polícia federal está multiplicando, de políticos corruptos no passado, não altera o roubo direto contra os salários dos servidores públicos, inconstitucional, porém não coibido pelos tribunais responsáveis, que está ocorrendo escandalosamente agora. [Nota 9]





Anexo: O problema historiador


a) O propósito deste estudo e as transformações necessárias = 1 Neste trecho trata-se de introduzir minha interpretação de informes como os de Dreifuss, que instauram transformações fundamentais na conceituação historiadora.
2 Tem sido um fato que a opção às distorções de textos historiadores produzidos com objetivo de inculcação ideológica direitista, viabiliza-se apenas pelos esforços dos pesquisadores relacionados aos conceitos de um modo ou de outro oriundos da teoria marxista.
Porém é irônico que o ilustrado como transformações em inúmeros informes importantes, motivados pelo anseio da verdade, como especialmente o de Dreifuss, seja uma ordem pós-europeia  do capitalismo vigente a partir do século XX desde o fim da primeira guerra. Como não houve boa vontade em aprofundar as mudanças até o nível dos conceitos básicos, seria esperável que da conservação do que foi produzido na visibilidade limitada ao capitalismo clássico resultasse também inadequações flagrantes com o que é factualmente reportado.
3 O escopo central deste meu estudo reside em mostrar que as mudanças em nível de conceitos implicam na superação do eurocentrismo e/ou ocidentalismo como esteio de qualquer filosofia da história. A ordem estadunidense é ruptura para com o antigo estado de coisas, porém apenas naquilo que o radicaliza, mostrando os seus verdadeiros fundamentos. Na nova ordem, tornou-se visível que o capitalismo é essencialmente operação do que se designa habitualmente imperialismo, a dominação das economias antes coloniais por novos meios, pelas mesmas potências capitalistas que perpetraram o colonial escravismo.
4 Ao contrário de todas as teorias, de direita ou de esquerda que vem sendo praticadas na modernidade, já não se pode considerar o capitalismo como a evolução psicossocial da humanidade, fase propedêutica ao comunismo futuro definindo-se como a razão eurocêntrica acabada. Foi com esse princípio ocidentalista, contudo, que a filosofia da história até recentemente não pretendeu romper. Há vários conflitos intra-teóricos que vem decorrendo desse conservantismo de esquerda, porém o que me parece preponderante é o decorrente da incompatibilização da teoria marxista com a questão do terceiro mundo, que implica a mudança da natureza do conflito, da classe social para a geopolítica.
5 O estudo de Dreifuss sobre o golpe militar de 1964, tendo sido a sua tese de mestrado, orientada por Ralph Miliband em Glasgow, Escócia, na década de setenta, está calcado na terminologia de Gramsci. Assim seria esperável que também houvesse algumas contradições.


b) A crítica ao conceito de “populismo” = 1 Em Dreifuss, uma vez que a ênfase de sua pesquisa reside na documentação da história efetiva, restou apenas, praticamente, uma incongruência, devido à conservação do termo “populismo” para caracterizar o período democrático após Vargas.
2 Esse recurso tem sido usado pela historiografia local e das escolas, ao que parece, ora para impedir que a democracia seja considerada um regime legítimo, não só legal, ainda que independente de qualquer compromisso comunista. Ora, possivelmente, para salientar alguma inferiorização do processo político local ao que seria o “desenvolvido” ocidental. Já não seria hoje considerado coerente o uso desse termo para a situação do país ao longo do período democrático após Vargas. O uso foi típico de historiadores que independente disso revelam-se razoáveis fontes. também aqui utilizadas. A inconsistência quanto a esse uso é porém flagrante de ingenuidades na compreensão de aspectos políticos da história, por exemplo Vicentino-Dorigo considerando que o aspecto elogiável do governo “populista” de Goulart foi que ele reviveu a época da democracia ateniense atribuindo-a como a verdadeira democracia, onde o povo discutia as leis nas ruas – algo de fato inconsistente, já que a democracia ateniense era menos consciente dos direitos do que a contemporânea, posto que nela não havia o conceito de cidadão como sujeito, apenas a noção de pertença coletiva à nação, pelo nascimento. [Nota 10]
3 Como é amplamente estabelecido, ao contrário do que os historiadores do “Populismo” brasileiro poderiam fazer supor, a origem histórica do “populismo” é o nazi-fascismo totalitário. Ao que parece, o recurso da designação de “populismo” ao período considerável da história local corresponde à dificuldade de se conceituar - ou se assumir - o nacionalismo como constituição democrática,  algo inteiramente irredutível à questão totalitária europeia, e à crítica “esquerdista” sectária correspondente.
4 Em termos de “terceiro mundo”, o conjunto de países definidos como subdesenvolvidos exatamente na medida em que foram colonizados pelo capitalismo a princípio europeu, nacionalismo é o movimento que visa a descolonização política e/ou econômica, e da qual se espera o fim das distorções sociais gritantes decorrentes da colonização e/ou imperialismo, o que não se reduz aos efeitos da luta de classes dos países colonizadores.
5 Nesse uso contextual do terceiro mundo, portanto, o significado de nacionalismo é o contrário do que significa o nacionalismo totalitário colonizador e racista do nazi-fascismo. O populismo do nazi-fascismo decorreu de sua propaganda de superioridade racial em prol da guerra colonizadora dos outros povos. O ditador nazi-fascista como Hitler, Hiroíto ou Mussolini, concentrava o ideal da raça, estetizado e midiatizado, e conclamava as massas à idolatria da sociedade nele personificada, manifesta em espetaculares e passionais concentrações do povo nas ruas. Assim, mesmo que o “populismo” fosse tradutível no terceiro mundo como caudilhismo, o modo pelo qual a elite local se consorcia ao imperialismo para impor a dominação às massas, o fenômeno não seria o mesmo.
6 Um terceiro uso do termo populismo seria apenas qualquer alusão a participação de massas em manifestações nas ruas, a favor ou contra o governo.
7 Ao contrário de outros historiadores que usam amplamente a mesma terminologia para a história local, Dreifuss a justifica expressamente, citando em nota a amplitude teórica de que se revestiu, entre referenciais como Ernesto Laclau, Lee Conniff, Fernando Henrique Cardoso, Regis de Castro e outros. Porém não apresenta conexão realmente explicitada do termo com o que ele próprio está documentando a propósito do golpe de 1964.
8 O tratamento pela terminologia gramsciana do “populismo” para caracterizar o período do pós-guerra a Goulart, prejudica a coerência do texto dreifusiano em menos aspectos do que o verificável em outros exemplos da historiografia conhecida. Mas em Dreifuss as contradições comuns também não estão ausentes.
9 Conforme ele, “populismo” assim definido para o contexto, seria a utilização estratégica das massas, pelo “bloco de poder oligárquico-industrial” atribuído condutor do regime por todo o período anterior ao golpe militar, como disfarce de sua real hegemonia. Essa política teria sido faca de dois gumes. Independente de ter permitido ao bloco de poder manter ou consolidar sua hegemonia, não pôde evitar que um espaço político fosse utilizado pelas “classes trabalhadoras”, para expressar suas justas exigência e desenvolver organizações visando romper a hegemonia oligárquico-industrial. [ Nota 11]
10 Porém o período considerado não revela a homogeneidade esperada por uma teoria gramsciana da “hegemonia” quanto à composição das classes dominantes. Justamente ela estava cindida entre os interesses do empresariado nacional e multinacional. Além disso, Café Filho é atribuído por muitos como a efetivação da política econômica imperialista que o varguismo eleitoral recusara, e Juscelino Kubitchek considera-se mais elitista em sua política econômica, do que qualquer “populismo” poderia suportar.
11 Uma segunda consequência tão importante como a consideração da origem mesma do termo, a propósito do rótulo historiador “populista” nesse caso, é sua oposição, também expressa em Dreifuss, à composição golpista. Esta é designada a “elite orgânica”, também expressão gramsciana. Tão oligárquica quanto havia sido a atribuída “populista”, teria pois dispensado, pelo aparato ditatorial, o disfarce das massas aos seus propósitos de poder. Porém o que Dreifuss expõe é inteiramente o oposto disso. A ação golpista foi praticamente carismática, e se não utilizou um só líder passional como no nazismo clássico, é porque empregou inúmeros, lançando enormes contingentes às passeatas e conclamações públicas, em todo o país, utilizando-se de massiva penetração editorial cartilhesca e subordinando toda a rede de mass midia nacional.
12 Além disso, o regime ditatorial apenas integrou o capitalismo local à articulação do business midiático axial ao capitalismo multinacional, sendo os mass midia e mercado editorial inegavelmente “populismo” na acepção de uma dependência do regime à opinião pública, não obstante ser esta o produto de um dirigismo sistemático possibilitado pelo próprio “mass midia”. O capitalismo e a mídia nunca são admitidos “populismo”, na terminologia gramsciana em particular ou marxista em geral, quando o capitalismo populista, passional e para-legal imperialista, é a realidade da sociedade de massas, e o fenômeno histórico a estudar deveria ser a transformação que assim resultou.
13 Assim também o “populismo” nunca é atribuído aos movimentos de contestação em nível de massa que estavam tendo muito maior amplitude na Europa e Estados Unidos, entre os sixties e os anos setenta, do que poderia ser registrado quanto à participação popular durante o período democrático que antecedeu Goulart.  
       14 O maio de 68 francês paralisou dez milhões de pessoas em greve geral por um considerável interregno de tempo, por exemplo, e ao que reporta Raymond Aron, “o partido comunista foi tão surpreendido quanto os outros”. Na verdade, Aron confidencia que a Eletricité de France, cujo sindicato era comunista, foi a responsável pelo fato do movimento de 68 não ter resultado em revolução, recusando ela aderir aos grevistas por não terem sido comunistas as lideranças. (Cf. Missika, Jean Louis e Wolton, Dominique. “O Espectador Engajado'', Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, p. 292)
14 ' O termo “populismo” foi usado nos Estados Unidos como adequado à participação de movimentos de massa, assim Rorty o registra (“Para Realizar a América, o pensamento de esquerda no século XX na América”, Rio de Janeiro, DP&A, 1999).
15 Comenta Richard Rorty a propósito de C. Lach, que para ele, aquilo que Paul Goodman havia considerado “a situação anormal” da ausência de planos de “reconstrução social” na época da guerra fria, era devido ao “colapso dos movimentos radicais de massa que cresceram durante algum tempo... o populismo, o socialismo e o nacionalismo”, como característica do ativismo estadunidense de inícios do século XX. Como típico participante dos protestos da geração mais jovem, Lash considerava que “um movimento que não é de massa deve ser de algum modo uma fraude”, ou que a crítica da política existente já não tinha sentido como qualquer “discurso político”. (p. 102 e seguintes).
16 Já o contexto da participação política local à época considerada “populista” pelo historiadores, jamais exibiu qualquer ruptura dos grupos organizados com a ordem política partidária. Não documentam estes historiadores nada que pudesse cheirar a anarquismo ou contestação “pop” à ordem do discurso - pelo contrário, quando a penetração “pop” ocorreu após o golpe, com sua liberação dos costumes, sexual e estética, as esquerdas foram tipicamente contra, etiquetando-o de imperialismo burguês. [Nota 12] O título de um livro de Wamireh Chacon é eloquente a propósito da inexatidão historiadora, expressando o que é nada menos que um paradoxo: “Estado e povo no Brasil, as experiências do Estado Novo e da democracia populista.” (Brasília, José Olympio/Câmara dos Deputados, 1977, o grifo é meu)

17 Como decorrente dessa inexatidão, Dreifuss é conduzido, a uma certa altura, a convir que havia dois populismos, um coerente à ordem democrática, e um conservador anti-democrático relacionado ao clientelismo tradicionalista da plantation no campo. Além disso, vemos ora Goulart integrar-se ao “populismo” por não ter feito um governo estritamente proletário, ora o “populismo” cobrir como período apenas até a renúncia de J. Quadros. 


c)As quatro atualizações = 1O objeto do estudo de Dreifuss, o golpe
de 1964 como fenômeno da ação capital-imperialista, está sendo aqui
apresentado como algo bem oposto a qualquer página ultrapassada da
história. Essa concepção assoma como uma atualização do parâmetro
Riqueza - historiador. Hoje pareceria trivial a dedução de que o golpe que instalou o
regime militar representou apenas a instalação necessária para que se seguisse a atual “globalização”, como domínio das multinacionais sobre os territórios nacionais do terceiro mundo, inclusive o Brasil. Compreender a “globalização” requer que tenha havido entendimento de sua estrutura, articulada na ação golpista. Porém pelos critérios que vinham sendo utilizados, não se tem cogitado na coordenação necessária dos dois momentos.
2 Uma vez estando conscientes da unidade do fenômeno capitalimperialista de expressão pós-1945, decorre a necessidade de se questionar a amplitude do fenômeno na história local, com vistas a apurar como ele se tornou possível na abrangência das forças em presença.
3 Também interpreto a cobertura dreifusiana com ênfase maior naquelas informações, antes descuradas, que permitem considerar a operação golpista não apenas estadunidense, ainda que protagonizada pela CIA. Mas ação conjunta do imperialismo multinacional, o bloco ocidental colonialista que congrega Estados Unidos, Europa e Japão. O próprio Dreifuss menciona fatores que favorecem assim deduzir, porém não os caracteriza especificamente.
4 Também na atualização dos estudos históricos é importante o equacionamento da relação dos acontecimentos do período com aquilo que desde os anos oitenta vem sendo testemunhado como o incremento do neonazismo. Independente, pois, da vitória dos aliados na Segunda Guerra, como de qualquer fator que pudesse relacionar-se à geopolítica da segunda guerra mundial.
5 Contra todo bom senso aparente constituído pelos dados que vinham limitando a visibilidade fenomênica, é forçoso atribuir o neonazismo à acomodação regida pelos países inimigos do próprio “eixo” totalitário nazifascista – alemão, japonês e italiano. Os dados mostram derivar-se da ação imperialista promovida após 1945 sobre o terceiro mundo, por parte dos países congregados como “primeiro mundo” capital-imperialista. Conforme acentuamos antes, eles já não estão cindidos como na época da guerra, entre blocos totalitário e liberal. Conjuntamente atuam como sede de multinacionais que exercem domínio férreo sobre o “terceiro mundo”, decorrente da ação progressiva orientada para tal fim, desde o pós-guerra.
6 Na verdade, a expressão “pós-guerras” mascara o principal acontecimento do período, que são as guerras promovidas pelo terceiro mundo em prol de sua libertação nacional, lembrando que especialmente a África e países asiáticos estavavam sob jugo propriamente colonial e não apenas de domínio econômico. A Europa resistiu aos movimentos de libertação após 1945, declarando guerra a eles, atuando pois de modo repressivo com os mesmos métodos desumanos das ditaduras que os
Estados Unidos estavam implementando na América Latina e Oriente Médio sob pretexto do anticomunismo. É sabido que os Estados Unidos intervieram também na descolonização afro-asiática, em prol dos países europeus, ou, ao menos, para impedir que as nações que emergissem independentes fizessem opção comunista. Mas o que se seguiu dos métodos desumanos dessa dominação foi o neonazismo como fenômeno político, especialmente após a dessovietização dos anos noventa. Já citei os testemunhos de Dreifuss e Julien a propósito dos elementos nazistas da composição do poder imperialista no terceiro mundo. À frente desenvolverei mais esse tema.
7 O quarto elemento de atualização histórica inerente à presente interpretação relaciona-se à redefinição necessária do capitalismo à luz do que precedentemente expomos. Inicialmente devemos salientar que capitalismo não significa livre empresa, mas inversamente, atuação de carteis ou monopolística em geral, ora presentificada nas multinacionais, como operação de domínio de mercado. Também não significa progresso intrínseco à tecnologia ou dialética de burguesia e proletariado, mas “assimetria internacional do capital” que desde há quinhentos anos tem se configurado como colonialismo e/ou imperialismo. Já os temas tratados ao longo deste estudo exemplicam e desenvolvem a redefinição proposta como termos da história efetiva recente. O livro 3 expõe a teoria contra-ocidentalista que tenho desenvolvido nesse sentido, o que tenho designado a “geoegologia”, a explicação do termo constando na parte designada. Aqui seria porém oportuno especificar alto a propósito.
8 Vários referenciais tem se tornado clássicos na tarefa de equacionar as mudanças do capitalismo verificadas ao longo do século XX, em que principalmente ocorreu a mudança da Europa aos Estados Unidos na qualidade de protagonistas da organização do modo de produção. A minha ênfase está, como salientei, num caráter ainda não explorado, se bem que sempre visível, dessa mudança em termos do imperialismo como nexo intrínseco à atuação do capital, tornado ostensivo naquele século.
9 Mas trata-se agora dos conceitos que já foram também levantados como importantes. O deslocamento do proprietário fabril oitoscentista para o controle acionário e empresarial-financeiro em geral, como identidade do capitalista, em Berle e Means. O papel preponderante da “elite do poder”, conforme os termos de Gerth e Mills, enquanto sempre maior concentração do processo capitalístico nas mãos dos técnicos e gestores especializados, com altíssimo nível de qualificação científica profissional.
10 Vários autores tem se ocupado das mudanças relacionadas à composição do que foi antes designado “proletariado”, como classe trabalhadora, mas que agora está extremamente diversificado em níveis de ocupação não unificáveis num único determinante de renda, status e cultura. Mas também, o que não tem sido hábito referenciar, a cisão no interior do modo de produção.
11 A cisão referenciada é o mais importante na superação da redução “científica”- “comunista” da sociedade à evolução psicossocial que se traduziria pela lei do capitalismo eurocêntrico na história. Para a formação de um conceito atualizado, seria necessário um trabalho teórico especialmente voltado à interpretação desses novos dados. Torna-se interessante assim o que poderia ser considerado um primeiro impulso nesse sentido, configurado por Pierre George em “Panorama do mundo atual” (São Paulo, Difel, 1970).
12 Ele congrega os aspectos já mencionados, porém com relevo para a qualidade singular do capitalismo norte-americano: preponderância dos bens de consumo, imperialismo na apropriação de matérias primas e controle de fontes energéticas, pesquisa de mercado e uso da psicologia social para colocação de produtos, produção abaixo das capacidades para evitar excesso de estoques, reinvestimento do excedente produtivo em pesquisa tecnológica. Assim resultou, como feição do neocapitalismo norte-americano, um horizonte de pesquisa, de operações financeiras e de investimentos sociais, junto a “ uma proliferação de atividades de serviços públicos, de publicidade, de distribuição de mercadorias, de public relations. A proporção de ativos não diretamente produtivos aumenta, a fim de atender o conjunto dessas necessidades.” Mas tudo isso faz-se exclusivamente em prol de um aumento dos lucros derivando de possíveis intensificações da oposição de custos e preços. (p. 34, 5).
13 Pierre George recenseia as mudanças causadas pelas novas tecnologias, desde a eletricidade, de modo que a indústria teria se tornado espacialmente independente da proximidade das fontes energéticas primitivas. Já equaciona pois o horizonte da robotização total, que tornaria a independência espacial absoluta, sendo esse o princípio da globalização como exportação das fábricas às localidades subordináveis aos interesses imperialistas. Ora, se a integração planetária é a operatória mesma do imperialismo, o modo de produção encontra-se ulteriormente à definição unívoca, uma vez que existiria um capitalismo central e o que podemos designar um “capitalismo subalterno” das nações submertidas à dependência econômica que se traduz pelo impedimento do desenvolvimento tecnológico autônomo.
14 Para Pierre George, o capitalismo seria um modo de produção cuja cisão se mostra pelos insumos diferenciados: o subdesenvolvido, dependente de matérias primas tradicionais e o desenvolvido, coordenado pela automação. Mas seria a meu ver a própria história da exploração imperialista que deveria implicar não numa dicotomia de antes e depois, relativa à revolução industrial, uma vez que o estado de coisas nas economias subdesenvolvidas não são de fato independentes de suas relações atuais com as economias desenvolvidas.
15 Descontando-se defasagens de interpretação – como considerar que a heterogeneidade étnica brasileira não comporta qualquer preconceito de “raças” interno – Pierre George considera oportunamente que a expressão “revolução industrial” já devia ser superada por imprópria, para caracterizar o desenvolvimento dos países centrais, uma vez que este não se reduz a um acontecimento datado no tempo. Mas é um processo continuado, uma “fase de transformação contínua e acelerada” inversamente a qualquer contingência única por decisiva que fosse na evolução de técnicas, economia ou sociedade. (p. 29)
16 Por outro lado, nós o vemos, esse processo implicando a existência de um capitalismo subalterno, este não se define por qualquer acontecimento ou processo autônomo desse tipo.
17 Ora, considero bem mais viável conservar o uso da expressão
“revolução industrial” para o processo continuado, uma vez que o complemento “industrial” já redefine contextualmente a substância da “revolução”. Mas também deveríamos proceder a ciência da História na margem anexada como fenômeno do capitalismo, a partir do conceito de contra-revolução industrial ativa, a qual seria o processo geopolítico da era histórica que define o imperialismo.
18 A questão antropológica da integração planetária do homem, está assim interligada essencialmente ao conflito geopolítico, de um modo que temos que pensar, se o que queremos é a superação dos antagonismos visando uma era de cooperação dos povos e harmonia universal. Como vimos, o imperialismo não define a sociedade norte-americana, que está, como todas, enfrentando um domínio oligárquico que também não tem no capitalismo científico-industrial a sua origem, ainda que o tenha quanto ao modo de operação.
19 Mas a definição do neocapitalismo estadunidense em Pierre George define com muita clareza a obsolecência do capitalismo clássico europeu, enquanto um primeiro sonho de integração planetária do capitalismo, ou seja, um primeiro imperialismo de ambição mundial, cujo fracasso ou limite histórico ocorreu na Guerra de 1914. Os Estados Unidos viabilizam pois, o sonho atual dessa integração.
20 Porém assim seria necessário, a meu ver, uma consciência menos confusa a propósito do papel integrado do próprio imperialismo, como o que se expressa atualmente na cartografia do conflito Norte Sul, que exponho algo minuciosamente no “livro 3” deste estudo.
21 É certo que George antevia um objetivo integracionista dos países europeus de concorrência à hegemonia estadunidense, algo que Aron também testemunha. Por outro lado os japoneses tendo substituído os europeus quanto a porções do imperialismo asiático desde o pós-guerra. Também superaram os Estados Unidos na produção da tecnologia de ponta, segundo outros, tendo porém mais países do extremo oriente se destacado na produção tecnológica de exportação, os assim designados “tigres asiáticos”.
22 Porém hoje o que os geógrafos relacionam ao esforço dos “blocos” regionais a princípio econômicos não é uma rivalidade das economias do primeiro mundo, mas sim a cisão de economias nacionais e capital privado transnacional. Já a situação do capitalismo central, enquanto conjuntamente oposto ao subalterno ou do terceiro mundo, naquilo que se relaciona à atual União Europeia, estaremos examinando a seguir, em nosso estudo do capitalismo histórico. Em todo caso, podemos convir que após os primeiros prognósticos, não houve superação do Estado nacional na maioria dos casos, como o americano e o asiático, e a Inglaterra voltou à independência recentemente, obtendo penosamente desligar-se da União Europeia. Mas houve, sim, a redefinição da cartografia planetária conforme a duplicidade dos status hemisféricos do “sul” (países subdesenvolvidos) e “norte”(desenvolvido).








Notas 


= nota 1
A atuação de Plinio Salgado fez-se notável no campo cultural por ter sido ele o líder de um movimento estético modernista, o “Anta”, besta de nome científico “Tapirus terrestris”, também designado “verde-amarelismo”, que se antagonizava aos participantes da Semana de Arte Moderna de 22, especialmente contra Oswald de Andrade, estes porém, com seus congêneres, os verdadeiros modernistas históricos que são marcos em vários ramos estéticos (poesia, literatura, pintura, música, arquitetura, escultura). 
 Os modernistas históricos realizaram uma revolução cultural com um sentido peculiar irredutível ao modernismo europeu, por utilizar pioneiramente fontes culturais antropológicas brasileiras, como do índio e do negro, aglutinando um ramo de pesquisa estética permanente, com influência em vários movimentos culturais posteriores a partir do “manifesto pau-Brasil”. Também por pensarem o primitivismo não como “ideal-tipo”, mas em termos de miscigenação como vocação democrática, e assim também princípio de renovação na ciência da História local. Seria interessante lembrar que esta peculiaridade é um fenômeno americano latino, conforme Otávio Paz salientou ao especificar que o modernismo inverteu a direção da importação cultural, indo das Américas à Espanha, já não o contrário como típico anteriormente.
Inversamente, 1926 assinala a ofensiva integralista fascista na cultura, com o “Anta” lançado contra o modernismo “pau-Brasil”. A proposta de Salgado era primitivista nacionalista mas pregando identidade nacional unitária, de tipo fascista, que teria supostamente na idolatria do Tupi o referencial. Obviamente só o símbolo escolhido já mostra o grotesco do integralismo, sendo “anta” signo de burrice ou grosseria, inversamente ao comum dos animais nacionais imaginados prestigiosos. O tipo de política segregacionista que na Globalização tem se verificado, consistindo na cooptação de “minorias” como negros, índios, mulheres, etc., não para extensão da cidadania democrática, mas para se aproveitar de complexos de inferioridade , de modo a promovê-los a agentes racistas do fascismo. A minoria assim não veicula sua história e heterogeneidade, é agrupado na base de suposta igualdade de modelos “ideal-tipo” que apenas repetem o estereótipo inventado pelo fascismo, servindo como aparelho repressivo dos que não são cooptáveis e geralmente contra a cidadania esclarecida, segundo o esquema imperialista conhecido como “regra indireta”. Além disso, como característica especificamente nazi-fascista difusa, os grupos repetem o mesmo, votando igual, mas cada grupo se supõe o originário “superior”.
Não por acaso, na redemocratização, em inícios dos anos noventa, estava havendo a revalorização acadêmica de Oswald como pensador democrático. Mas a Globalização de inícios dos anos dois mil assinalou um componente reacionário similar à atuação golpista do “Anta” que Dreifuss relatou sobre o líder ditatorial da CIA . Componente que se espraiou para alteração conspícua da linguagem de mídia, centrada no baixo nível com ideologia nazista, dominação da sociedade, censura na Universidade por vários meios ainda que não estatais, patrocínio e/ou impunidade a grupos e práticas declaradamente nazi-fascistas, etc. Neste estudo relato à frente as intoleráveis condições caóticas presentes. O livro 3 explora a questão cultural relacionada ao elemento político.
nota 2 .
Não obstante todo aparato da fraude a alto custo, o resultado da eleição de 1962 não favoreceu de nenhum modo os candidatos do IPES/IBAD. Porém não é certo deduzir que a vitória das forças nacionais favoráveis a Goulart foi o fator que conduziu ao golpe reacionário. Como se pode ver pela informação de Dreifuss a propósito de Mourão Filho. As duas fases, eleitoral e golpista militar, estavam planejadas desde antes da eleição (p. 374). E se Mourão Filho atuava sem integração ao IPES, quanto ao planejamento deste seguia o General Golbery do Couto e Silva, para quem o golpe só teria sentido se a opinião pública se mostrasse favorável, o que evidentemente seria o esperado das eleições (p. 375). Como o resultado eleitoral foi contrário ao golpismo, a exposição fica algo ambígua, porém parece que o andamento do texto dreifussiano autoriza deduzir que a seu ver o IPES confiou na própria ação de mobilização das massas. Em todo caso, esta ação estava coordenado ao armamento das classes anti-goularistas (ver nota 3).

nota 3
Não obstante a impressão de hegemonia de esquerda que o estudo de caso real reporta, Dreifuss também registra acuradamente a forte penetração da mentalidade anti-goularista e anti-esquerdista nos meios estudantis, protagonizada por estudantes de classe média-alta e alta. A grupos espontaneamente formados como o GAP (Grupo de Ação Patriótica) de Aristóteles Drummond, ressoavam os esquemas de sabotagem coordenados por divisões especiais do IPES cujos responsáveis eram do alto escalão nas forças armadas e segurança pública. Os esquemas resultavam em ações de impacto contra pessoas, eventos e atividades consideradas reformistas democráticas e apoiadas pelo governo federal goularista. O contingente utilizado da segurança pública e forças armadas era enorme, de centenas de agentes. Quanto ao GAP, foi contatado pela Embaixada Americana e CIA para receber apoio e material de divulgação doutrinária, logo se tornando armado, como aliás vários protagonistas do golpe incentivavam aos seus correligionários. Não obstante a conspiração em marcha, o governo federal logrou investigação da PM, que efetivamente provou a criminalidade das ações do GAP e vários grupos paramilitares, atingindo ainda atividades da deputada lacerdista Sandra Cavalcanti. Porém, conforme nota Dreifuss, o julgamento do caso ficou atribuído a um conspirador golpista, o General Sardenberg, que liberou a liderança do GAP assim como tornou a captura dos demais de nulo efeito (p. 383 e seguintes).

nota 4
Os números do genocídio são de difícil cálculo, devido à proteção de que usufrui até hoje o esquema de segurança ditatorial. A disponibilização dos documentos secretos devido ao tempo decorrido tem sido sempre negada pelo Congresso. Conforme fontes, relativamente à América Latina, só na Argentina o número provável varia de 30 mil a 10 mil vítimas.

nota 5
Estudos sobre a resistência cultural à ditadura ão importantes, e deveriam estar integrados aos curriculuns, tanto pelo conhecimento dos referenciais que cobrem, como para pesquisa e crítica do ambiente teórico, discurso, psicologia, etc. O texto de Schwarz sobre Cultura e Política é bastante abrangente, sendo sua tese citada em Deleuze (“Cinema 2”). Porém atua mais como crítico marxista do movimento de renovação cultural. Mariângela Alves de Lima (Os grupos ideológicos e o teatro da década de 1970) cobre com minúcia e boa compreensão os grupos de teatro que se formaram como estratégia de resistência, alguns alcançando importância histórica. Ana Mae Barbosa (Arte-educação na cultura brasileira) estuda as atitudes despreparadas que se revelaram no ambiente dos educadores que deviam reorganizar a escola na redemocratização, quando foram revogadas as intervenções diretas do governo ditatorial. Muito mais referenciais deveriam se tornar conhecidos. A propósito ver o livro 3.

nota 6
Ver nota 1 a propósito da trajetória cultural do modernismo, com influência na política. Sem dúvida, o modernismo histórico aglutinou a independência cultural anti-colonialista-imperialista e da nacionalidade nesse sentido libertário, que colhe frutos na conscientização patente da era Goulart. A pós-modernidade emerge pela necessidade de lidar com o limite das definições do processo de emancipação política pautadas pela premissa de que isso basta sendo o processo em si mesmo. Ou seja, podemos definir o limite do “modernismo” oswaldiano na sua crença na universalidade da “revolução dos gerentes” à Burnham. Nesse sentido visamos a ironia do modernismo como ao mesmo tempo a emergência da palavra das singularidades culturais na vigência dessa premissa. Também complica esse paradoxo o forte impulso do marxismo universalizante naquele momento de conscientização das nacionalidades do terceiro mundo. Ver livro 3 a propósito de Oswald, o modernismo e o pós-modernismo.

Nota 7
Ver nota 3 a propósito da participação golpista de Sandra Cavalcanti, sendo importante lembrar que na redemocratização ela atuou como força de voto nas eleições.


Nota 8
Tem havido processos contra invasão de privacidade e manipulação identitária de pessoas comuns por diretores de mídia, o que configura o que poderíamos designar panopticum utilizando o termo do projeto de Benthan de visibilidade penitenciária total – mas como visibilidade clandestina sobre a vida privada – o que é aliás incentivado por meio de propaganda de “droler”, meios de espionagem eletrônica, etc. Sobre a exacerbação desse processo de degeneração social pela componente micro-informático, estudamos com minúcia à frente. Sobretudo cabe ressaltar que aqueles que se utilizam de mera cópia da vida ou de documentos, estudos, produções, etc., de pessoas roubadas, para se vangloriarem de serem artistas famosos, reduzem-se apenas a ladrões despudorados, cabendo participação dos lucros que auferem por aquelas pessoas que plagiam, assim como atribuição verdadeira da autoria.


nota 9,
Quanto aos juros pagos aos poupadores, inversamente aos 10% usuais para empréstimos, é de 0, 5 %. Os processos contra a ação inconstitucional do governo roubando o salário dos servidores são indeferidos por juizes que consideram estarem estes apenas sofrendo um “aborrecimento” - conforme noticiado. Quando o que deve acontecer é condenação dos fautores da inconstitucionalidade por perdas e danos daqueles a quem estão submetendo ao roubo.


nota 10
Também as leis não eram discutidas por todos, e sim só pela assembleia que devia votá-la. Todos dentre a população masculina e livre eram alguma vez sorteados para participar de cargos públicos, o que diferencia nosso processo de representação, mas por isso mesmo é o atual o racional, uma vez que consideramos a heterogeneidade subjetiva. Mesmo assim, a meu ver, deveríamos impugnar a etimologia da “democracia” como governo do “povo”, já que o “demos” de que se tratava naquele contexto da reforma grega, não significava necessariamente “povo”, e sim “região da cidade” ou “circunscrição terrotorial”, que foram instituídas por Clístenes (508, ac.) e por ele reunidas em dez “tribos”. Clístenes assim procedeu instituindo a democracia, “tomando as tribos como unidade hásica da reorganização do governo”, conforme Ellauri e Baridon (Historia Universal, Grecia, Buenos Aires, Kapeluz, 1958, p. 63). Pela ordenação dos demos, não implica tampouco que sejam as regiões ou tribos diretamente que governam , mas sim que o governo é do país que se organiza em demos ou tribos. Clístenes operou assim a mudança do status dos cidadãos, que se tornavam integrados pela região (“demos”) em que habitavam, dotadas de igualdade perante a lei, já não pela classe diferenciada dos nobres e plebeus como na era arcaica, ou de ricos e pobres como na reforma anterior de Solon.
 Nota 11
    As Notas conceituais que Dreifuss agrega ao seu já citado estudo (“1964, a conquista do Estado”, e que são importantes à minha crítica pós-moderna como ideias oriundas da sociologia moderna, constam à p. 40 (sobre (“bloco histórico”) e p.43 (sobre “populismo”) .
nota 12
Um exemplo da truculência com que a renovação cultural dos sixties era recebida aqui, é o artigo de Soares e Miranda, “Contribuição ao estudo de Wilhelm Reich” (Tempo Brasileiro nº 36, “A história e os discursos” janeiro/junho 1974). Aí vemos não só Foucault misturado com Reich, mas uma denegação veemente de que as mudanças de costumes e liberação sexual fossem algo além de ideologia burguesa, imiscível à psicanálise reichiana, sem consideração qualquer para o fato de ser Reich uma grande influência da juventude nessa época.



    

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